I, Tonya (2017)

Agoniante.

Independentemente de a história que vimos na tela de cinema tender mais para o verdadeiro ou mais para o ficcional em relação à vida real da patinadora Tonya Harding, as representações de violência, de construção de imagem que se quer registrar para representar um país e a total falta de noção do que seja amor – tanto na relação entre mãe e filha, quanto na relação entre homem e mulher – me deixaram sufocada.

O filme é muito bom. Denso. Construído em um formato de entrevistas, que pareceram-me querer forjar um caráter mais verídico, mescladas com o desenrolar da história em si e bons momentos de patinação para aqueles que gostam. Entretanto, como não sou crítica de cinema e o que me interessa é o que me “alimenta” enquanto conteúdo, os pontos marcantes para mim têm tudo a ver com questões que se fazem presentes em minha atuação como professora formadora de cidadãos críticos.

Primeiro ponto: o filme ratifica a ideia de que a história que lemos nunca é a história real, mas uma versão a partir de um ponto de vista com uma intenção, muitas vezes bem clara. Isto é, a parcialidade existe pelo ponto de vista de quem detém o poder de contar essa história. A passagem do filme na qual Tonya se dirige a um juiz de patinação no estacionamento e ele lhe diz que ela não conquista a pontuação merecida por não representar o ideal de família americana que eles desejam passar para o mundo demonstra claramente o preconceito social que vivemos. Um preconceito cruel porque é, em muitas situações, camuflado. A pessoa luta, luta, quebra inúmeras barreiras para chegar aonde chegou, mas descobre que há outras tantas barreiras que ainda a separam da conquista de seu lugar ao sol, barreiras intransponíveis por imposições sociais.

Segundo ponto: quantas crianças são criadas em um ambiente de violência e, por isso, não aprendem a diferença entre o amor e a dor; o respeito e a humilhação? Visão crítica de mundo só se constrói quando se tem a possibilidade de enxergar o diferente. O entendimento do que seja amor para Tonya, segundo o que se apresenta no filme, é uma deturpação moral a partir do mundo em que ela foi formada, criada e educada. Infelizmente, muitas mulheres ainda hoje apanham de homens que as dominam: pai, padrasto, irmão, primo, namorado, marido, amante etc., e o pior, ações endossadas até por outras mulheres, porque não sabem distinguir amor e dor, simplesmente, porque desconhecem isso.

Tonya permite estas e outras tantas discussões. O único ponto que me desagradou foram as pitadas de humor com ironia nas falas de Tonya nas entrevistas ou quando se dirigia ao espectador, mas isso, talvez, tenha uma explicação: o filme apresenta uma “insana história real”.

Vale muito assistir! Já tem para alugar no Google Play, no Youtube etc.

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