Sobre a brevidade da vida e o nosso frágil corpo

Há muito entendi que a vida é o momento presente, que se torna passado num átimo. Adiar as ações, postergar os sonhos, fugir das verdades, das palavras, temer as consequências e, por isso, adiar a vida plena em si, só resulta em uma coisa: não viver experiências ricas, não escrever uma história que valha a pena ser lida/contada. E alimentar frustrações.

Pode até ser loucura minha, mas eu tenho a impressão de que consigo reconhecer claramente quem faz a opção pela vida em sua plenitude e quem a deixa correr por entre os dedos com as mais variadas desculpas, tabus e rancores. Estes vivem com culpas, invejas, frustrações, mágoas, achando que os outros só fazem mais porque têm sorte (algo externo a eles que lhes dá o suporte necessário para ir adiante); aqueles, e eu me enquadro aí, simplesmente vivem intensamente tudo, porque esse tudo – família, amigos, trabalho, lazer… – faz parte do grande pacote do significado da vida. Isso traz uma tranquilidade na alma, que nos liberta de sentimentos ruins, como a culpa e a inveja.

É lógico que devemos ser responsáveis e cuidadosos conosco mesmos e com nossos entes e pares. Viver intensamente a própria vida não é esquecer o outro, muito menos passar por cima do outro. Esse é o princípio primeiro para mim, independente de credo, mas que mostra a percepção de que não estamos sozinhos aqui nem somos únicos. O mandamento cristão “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo” engloba bem essa ideia de amar aquilo que nos dá a vida – seja um Deus para os que creem, seja a Natureza, o oxigênio ou qualquer outra referência – e amar a si mesmo para poder, de fato, amar o outro. Acrescento, porém, que, para mim, amar não é a palavra que se diz, é verbo, e verbo é ação. Portanto, amar é fazer, é realizar, é praticar… é viver.

Se há amor, há cuidado e gratidão. Então, viver intensamente o presente, os sonhos, e realizar os desejos não é loucura nem egoísmo. É, ao contrário, usufruir plenamente da dádiva da vida que nos foi dada. Tenho urgência em viver e aproveitar o máximo que puder desta rápida vida. Já senti a sua brevidade com a perda de pessoas muito importantes para mim. E vi que o tempo não deixa de passar nunca.

Sei que estou pensando alto aqueles pensamentozinhos silenciosos que enchem nossas cabeças de vez em quando, mas estou num momento de ebulição de reflexões. Olho para meu pai e só sinto amor. Não sinto remorso por não ter feito ou não ter dito algo. Sinto paz. E isso me dá muita tranquilidade para pedir o que acho que é o melhor. Meu pai amado está sofrendo com um câncer devastador. E eu estou rezando intensamente pela sua partida o mais breve possível. Não o quero preso a uma máquina que toma o lugar de seus órgãos para manter funções vitais e dizer que ele ainda está aqui. Não gostaria também que o tempo de espera pela falência dos órgãos fosse tão grande, que tirasse dele toda a dignidade de ser humano. Pedir por uma boa morte é um direito de quem vive e de quem ama. Pedir que ele descanse – e peço de coração porque desejarei o mesmo para mim em situação semelhante – é ter ciência de que sua vida foi intensa e bela e de que ele muito me amou e me ensinou sobre a vida. E de que, enquanto eu viver, ele estará sempre vivo em mim.

Pode ser que ele enfrente a infecção e a baixíssima imunidade e ainda saia do CTI para voltar pra casa e viver aquele terrível período de espera que o câncer impõe. Do intestino operado no ano passado, já se sabia da metástase no figado e agora descobrimos no pulmão. Vou continuar pedindo dia a dia que ele não seja entubado e que não sinta dor. Mas vou pedir também com toda a minha força, toda a minha fé, que esse período seja bem curto, porque prefiro que seja uma sobrevivência breve, mas com alguma dignidade, a uma sobrevida desumana, indigna. Nosso corpo é frágil.

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