Cora Coralina: todas as vidas (2016)

Fiquei muito emocionada hoje ao ver o documentário “Cora Coralina: todas as vidas”.

Poemas recitados por diversas atrizes que representam Aninha, a nossa Cora Coralina, em idades distintas; um passeio pela cidade natal da poeta; entrevista com pesquisadores, amigos e familiares; vídeos da própria Cora… Esses são alguns dos recursos utilizados para criar um documentário dramatizado e poético sobre uma das escritoras mulheres mais fortes e importantes, embora não tanto badalada, de nossa cultura.

Vale cada minuto, cada interpretação ouvida e sentida!

O texto abaixo foi escrito por ninguém mais do que nosso amado poeta Carlos Drummond de Andrade. Saiu pela primeira vez no caderno B, do Jornal do Brasil, em 27 de dezembro de 1980.

Acho que não há nada melhor do que ele para falar da deliciosa alegria que senti ao ver hoje esse documentário em homenagem a Cora Coralina.

Este nome não inventei, existe mesmo, é de uma mulher que vive em Goiás: Cora Coralina.

Cora Coralina, tão gostoso pronunciar esse nome, que começa aberto em rosa e depois desliza pelas entranhas do mar, surdinando música de sereias antigas e de Dona Janaína moderna.

Cora Coralina, para mim a pessoa mais importante de Goiás, mais do que o governador, as excelências, os homens ricos e influentes do Estado. Entretanto, uma velhinha sem posses, rica apenas de sua poesia, de sua invenção, e identificada com a vida como é, por exemplo, uma estrada.

Na estrada que é Cora Coralina passam o Brasil velho e o atual, passam as crianças e os miseráveis de hoje. O verso é simples, mas abrange a realidade vária. Escutemos:

“Vive dentro de mim

uma cabocla velha

de mau olhado,

acocorada ao pé do borralho,

olhando pra o fogo.”

“Vive dentro de mim

A lavadeira do rio Vermelho.

Seu cheiro gostoso d’água e sabão.

“Vive dentro de mim

a mulher cozinheira

Pimenta e cebola.

Quitute bem-feito.”

“Vive dentro de mim

a mulher proletária.

Bem linguaruda,

desabusada, sem preconceito.”

“Vive dentro de mim

a mulher da vida.

Minha irmãzinha…

Tão desprezada

tão murmurada…”

Todas as vidas. E Cora Coralina as celebra todas com o mesmo sentimento de quem abençoa a vida. Ela se coloca junto aos humildes, defendendo-os com espontânea opção, exalta-os, venera-os. Sua consciência humanitária não é menor do que sua consciência da natureza. Tanto escreve a Onde às Muletas como o Poema do Milho. No primeiro texto, foi a experiência pessoal que a levou a meditar na beleza intrínseca desse objeto (“Leves e verticais. Jamais sofisticadas! Seguras nos seus calços de borracha escura. Nenhum enfeite ou sortilégio”). No segundo poema, o dom de aproximar e transfigurar as coisas atribui ao milho estas palavras: “Sou o canto festivo dos galos na glória do dia que amanhece. Sou o cocho abastecido donde rumina o gado. Sou a pobreza vegetal agradecida a vós, Senhor.”

Assim é Cora Coralina: um ser geral, “coração inumerável”, oferecido a estes seres que são outros tantos motivos de sua poesia: o menor abandonado, o pequeno delinqüente, o presidiário, a mulher da vida. Voltando-se para o cenário goiano, tem poemas sobre a enxada, o pouso de boiadas, o trem de gado, os becos e sobrados, o prato azul-pombinho, último restante de majestoso aparelho de 92 peças, orgulho extinto da família. Este prato faz jus a referência especial, tamanha a sua ligação com usos brasileiros tradicionais, como o rito da devolução: “Às vezes, ia de empréstimo/ à casa da boa Tia Norita! E era centro da mesa/ de aniversário, com sua montanha/ de empada bem tostada./ No dia seguinte, voltava,/ conduzindo por um portador/ que era sempre o Abnegado, preto de valor,/ de alta e mútua confiança./ Voltava com muito-obrigados/ e, melhor cheinho/ de doces e salgados./ Tornava a relíquia para o relicário…”

Relicário é também o sortido depósito de memória de Cora Coralina. Remontando à infância, não a ornamenta com flores falsas: “Éramos quatro as filhas de minha mãe. Entre elas ocupei sempre o pior lugar.” Lembra-se de ter sido “triste, nervosa e feia./ Amarela, de rosto empalamado./ De pernas moles, caindo à toa.” Perdendo o pai muito novinha. Seus brinquedos eram coquilhos de palmeira, caquinhos de louça, bonecas de pano. Não era compreendida. Tinha medo de falar. Lembra com amargura essas carências, esquecendo-se de que a tristeza infantil não lhe impediu, antes lhe terá preparado a percepção solidária das dores humanas, que o seu verso consegue exprimir tão vivamente em forma antes artesanal do que acadêmica.

Assim é Cora Coralina, repito: mulher extraordinária, diamante goiano cintilando na solidão e que pode ser contemplado em sua pureza no livro Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais. Não estou fazendo comercial de editora, em época de festas. A obra foi publicada pela Universidade Federal de Goiás. Se há livros comovedores, este é um deles. Cora Coralina, pouco conhecia dos meios literários fora de sua terra, passou recentemente pelo Rio de Janeiro, onde foi homenageada pelo Conselho Nacional de Mulheres do Brasil, como uma das 10 mulheres que se destacaram durante o ano. Eu gostaria que a homenagem fosse também dos homens. Já é tempo de nos conhecermos uns aos outros sem estabelecer critérios discriminativos ou simplesmente classificatórios.

Cora Coralina, uma admirável brasileira. Ela mesma se define: “Mulher sertaneja, livre turbulenta, cultivadamente rude. Inserida na gleba. Mulher terra. Nos meus reservatórios secretos um vago sentido de analfabetismo.” Opõe à morte “aleluias festivas e os sinos alegres da Ressurreição. Doceira fui e gosto de ter sido. Mulher operária”.

Cora Coralina: gosto muito deste nome, que me invoca, me bouleversa, me hipnotiza, como no verso de Bandeira.

Esse texto de Drummond consta do livro da homenageada “Vintém de cobre – Meias confissões de Aninha”, Global Editora – São Paulo, 2001, pág. 08.

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