“La casa de papel” (Netflix-2017) e o medo que tenho das séries

A série espanhola “A casa de papel” é um vício eletrizante.

Vou falar aqui dessa grande e espectacular produção, mas também da loucura que é se prender a uma série.

Tempos atrás escrevi, aqui mesmo no blog, que não gosto muito de séries, prefiro filmes. Após ver 13 episódios seguidos no Netflix e 6 baixados na internet, porque seria inconcebível esperar alguns meses para saber o Grand Finale, mantenho o que disse.

Vou-me explicar!

Quando vejo um bom filme de cerca de duas horas, passo outras tantas horas depois ruminando, refletindo sobre tudo o que vi. Nessas duas ações, há um limite suportável para o exercício mental e o cansaço natural posterior a isso.

Numa série, esse tempo é bem diferente! Na verdade, no tipo de produção que temos hoje, cujo acesso direto (é comum termos diversos episódios já disponíveis) pode nos prender até acabar, o tempo se torna um fator, por vezes, enlouquecedor.

Aí está o problema!

Você começa a assistir a algo que te prende e quer seguir um episódio eletrizante atrás do outro sem parar, como se estivesse sendo alimentado todo o tempo, igual a Ulisses e seus soldados, por flores de Lótus. A gente perde a noção do tempo e quer ficar ali mergulhado naquela fantasia!

Diferente de um passado próximo (minha infância e juventude), em que só assistíamos obrigatoriamente a um episódio de série por semana ou a um de novela/minissérie por dia (como Sherazade mantinha a sua vida noite após noite), hoje podemos nos prender em casa um fim de semana inteiro, um feriadão ou, pior, passar noites sem dormir por causa de uma produção como esta.

Longe da sabedoria de Sherazade, será que estamos precipitando a nossa própria morte?!

Sei que muitos vão dizer que isso tem a ver com o autocontrole de cada um, mas me pergunto – e é uma pergunta real, nada retórica – quantos estamos nos deixando alienar com essa miopia generalizada de produção em série de séries? (Acho que o trocadilho não poderia ser melhor.) Quanto estamos nos afastando da realidade da vida e do que deveríamos fazer para viver melhor e com mais dignidade?

Mas deixa pra lá. São coisas a pensar; apenas algumas pulguinhas atrás da orelha… Acho que ainda não tenho respostas para isso.

Agora, saindo do medo para o total delírio, que porra de série foda é essa?! Sim, não há termos melhores do que esses pra qualificar o que vi por 16 horas seguidas.

Eu estou sendo vítima da Síndrome de Estocolmo neste exato momento! Estou apaixonada pela trama e pelos bandidos. Me emocionei com cada um deles em suas histórias de vida que nos mostram a humanidade em sua mais pura verdade. Ninguém é de todo mau; ninguém é de todo bom. E muitos são/somos imbecis mesmo. Quem são os bandidos e quem são os mocinhos?! Fazer juízo de valor de uns e de outros a partir do nosso ponto de vista, sentados confortavelmente no sofá, é, no mínimo, limitado ao que conseguimos enxergar com nossos antolhos.

Isso fica claro, por exemplo, (pequeno spoiler) quando os reféns têm a chance de escolher entre a liberdade e o dinheiro, tornando-se uma espécie de “sócios” dos ladrões. E é óbvio que há gente pra tudo nessa vida, porque o ser humano é corruptor e corruptível, e a lei da sobrevivência tem níveis de exigência diferentes para cada um.

A casa de papel vai desnudando diversos tipos humanos, mostrando-nos os diferentes lados da moeda. O doente, o corajoso, o nerd, o que nada tem a perder, o sentimental, o humano em sua essência, o pai, o filho, o covarde, o excêntrico, o psicopata, a vítima, o vitimizado, a mulher, o homem, o macho, o gay, a família, o coletivo, o indivíduo e sua lei de sobrevivência… Diversos papéis que se juntam e se transformam concretamente em dinheiro, muito dinheiro, na Casa de Papel (equivale à nossa Casa da Moeda). Notas que têm vida limitada e que, por isso, precisam estar soltas, rodando pelo mundo, antes que se decomponham, pois a vida é assim. E é preciso vivê-la!

4 comentários

  1. Opa Tati, tinha esquecido a senha por isso demorei pra comentar/conversar aqui 😎😎

    Sobre o “vício” de séries vale a letra do Rapaz:

    “Procurando novas drogas de aluguel
    Neste vídeo coagido”

    Séries, filmes e entretenimento em geral se dominam a pessoa não difere de álcool, quimica, etc…

    Sobre a série em si, vou terminar aos poucos pelo espanhol e pelas personagens do Professor e da Negociadora… Os outros bandidos me irritam 😎

    Curtido por 1 pessoa

    • Pura verdade o vício! Vou ler agora a letra toda dessa música do Rappa. Quanto à série, há muitos furos e muitas coisas óbvias (é difícil uma produção perfeita rsrs). No entanto, a dinâmica que mantém a gente interessado é bem legal.

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