Percepção x realidade da educação na mente dos brasileiros

O texto abaixo foi publicado hoje, 29 de janeiro de 2018, na Folha de São Paulo.

Certo dia, um príncipe indiano mandou chamar um grupo de cegos de nascença e os reuniu no pátio do palácio. Mandou também trazer um elefante e o colocou diante do grupo. Em seguida, conduziu-os até o elefante para que o analisassem. Um apalpou a barriga, outro a cauda, outro a orelha, outro a tromba e o outro uma das pernas. Quando todos tinham apalpado o animal, o príncipe ordenou que cada um explicasse como era o elefante.

O que tinha apalpado a barriga disse que o elefante era como uma enorme panela. O que apalpou a cauda discordou e disse que o elefante se parecia mais com uma vassoura. E assim cada um descreveu o animal de acordo com a sua própria experiência e percepção da realidade.

Com o intuito de entender a percepção versus a realidade sobre a educação no Brasil, o Ideia Big Data e o Movimento Mapa Educação fizeram uma pesquisa nacional. Após 1.200 entrevistas via telefone, realizadas entre os dias 4 e 12 de dezembro de 2017, foi possível mensurar o quanto o imaginário dos brasileiros sobre o tema condiz com os dados reais.

Tal qual no conto indiano, a pesquisa indicou que os entrevistados têm uma visão incorreta sobre boa parte dos temas: há uma tendência ao pessimismo, desenhando uma realidade muito pior do que os fatos.

Acredita-se que o número de escolas com acesso à internet é menor do que realmente é, que o investimento estadual e municipal é inferior ao valor real (e que é constitucionalmente definido) e que o salário dos professores é ainda menor do que realmente é. A conclusão não causa espanto.

A pesquisa revela que os verdadeiros usuários do ensino público têm uma percepção mais ajustada da realidade. De acordo com a PNAD de 2015, o Brasil tem taxa de 8% de analfabetismo entre pessoas com mais de 15 anos. Do total dos entrevistados, 60% erraram a resposta — para eles, esse número é superior a 10%. Já 35% dos jovens de 18 a 24 anos, que em tese podem ter acessado o ensino público no curto prazo, acertaram a questão.

Essa percepção também se mostra deturpada quando comparadas as respostas de classes sociais distintas. No item sobre a nota média do Ideb nos anos iniciais da educação básica, apenas 23% dos respondentes de “classes A/B” acertaram ao dizer que está “entre 5 e 6 pontos” (5,5 é o correto, de acordo com a Prova Brasil de 2015). Já o quantitativo de pessoas da “classe E” que acertou foi quase o dobro.

Esses dados nos permitem intuir que o pessimismo tende a ser maior entre aqueles que não são usuários do serviço. É claro que a educação que existe hoje no Brasil está longe de ser a que queremos e ainda há muito o que avançar, mas é interessante notar que a percepção sobre educação pública é tão diferente. Quem se utiliza do serviço no curto prazo tende a enxergar a realidade mais precisa.

Dizem os psicanalistas que a percepção correta do problema é o primeiro passo para a cura. No nosso caso, quanto maior a proximidade com a escola pública, menor a cegueira. É exatamente essa exatidão que precisamos em 2018. Quem sabe assim a gente pare de enxergar a educação como um elefante, prejudicando o desenvolvimento do país.

MAURICIO MOURA, 39, é doutor em economia e política do setor público; fundador do Idea Big Data, é pesquisador da George Washington University

CAROLINA CAMPOS, 36, é diretora de conteúdo do Movimento Mapa Educação; advogada com mestrado em políticas públicas e especialização pela Harvard Extension School

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