“Existir como ser humano negro neste país já é, em si, um ato político. Ser um ser humano negro e feliz no Brasil é um ato revolucionário.”

Não sou negra, mas esta questão mexe muito comigo e por isso compartilho sempre sobre o tema aqui em meu blog e discuto quase que diariamente com meus alunos. Três motivos me fazem entender a dor que sei que meus irmãos negros e pardos sentem, e eu sofro muito com a dor deles.

O primeiro…

Senti na pele o que é sofrer com o olhar de preconceito do outro. Fui obesa quase a minha vida inteira, e isso marcou profundamente o meu jeito de ser, de agir e reagir. Um exemplo? Quando entrava em uma loja de roupas, já via o olhar de cima abaixo como quem diz “Não há nada para você aqui!” Sei que coisas assim e muito, muito piores acontecem com eles, diariamente.

O segundo motivo…

Já vi e ainda vejo situações reais de preconceito no meu dia a dia com meus alunos, colegas, amigos e familiares. Muitos deles disfarçados, dissimulados.

O terceiro e mais difícil de falar…

Hoje tenho consciência de que também já tive reações preconceituosas a partir de um olhar de medo e depreciação instituídos na minha criação e formação, como se fosse algo que viesse de dentro, inerente à minha constituição como ser social, e ainda era reprodutora de alguns estigmas, sem que me desse conta. A mudança de minhas concepções só ocorreu quando reconheci (e não foi de uma hora para outra) que há, sim, uma diferença – absurda e cruel – de tratamento em nossa sociedade, e que, por isso, é preciso remodelar alguns valores instituídos. E isso, às vezes, é um exercício longo e diário, de atenção e autocorreção. Mas acima de tudo um exercício de se colocar no lugar do outro.

O que venho aprendendo e praticando no meu dia a dia:

Não basta dizer que todos somos iguais. Ou que não sou preconceituosa. E achar que está tudo ok, que estou fazendo a minha parte.

Preciso lutar com a minha profissão e com a minha cidadania para que todos sejam, de fato, iguais na balança da vida. Afinal, a pele de um não pode pesar mais em valor do que a pele de outro pela sua cor.

Além disso, preciso reeducar meu olhar a todo instante para enxergar o outro e suas demandas. Sim, porque elas vão aparecendo conforme nos abrimos para enxergá-las.

Resolvi fazer esta espécie de desabafo depois de ter lido, no dia 28, o artigo que Ana Paula Lisboa escreveu com muita sensibilidade em sua coluna no jornal O Globo de 22/11/2017. Destaquei para título desta publicação duas frases do texto dela muito impactantes para mim. Se quiser, leia-o na íntegra abaixo. Transcrevi-o inteiro, mas os grifos em negrito são meus.

Ana Paula conseguiu me emocionar e mexer bastante comigo. Precisamos de umas sacudidas de vez em quando para sair da zona de conforto.

MILITÂNCIA PELA FELICIDADE

Descolonizar-se é entender que preto não nasceu para aguentar tudo e lutar 24 horas por dia

Eu sou, como dizem, “a louca do rolê racial”. Porque essa é uma discussão da qual nunca fujo, uma briga que não deixo passar. Outro dia, uma leitora desta coluna me escreveu um e-mail reclamando que eu era “obcecada por cores”. Sou mesmo: adoro o amarelo de Oxum, sei que fico bonita de vermelho e me emociono quando passo por um Ipê amarelo florido ou assisto a um pôr do sol alaranjado. Algumas pessoas preferem fingir daltonismo e declarar: “não vejo cores, vejo pessoas”. Eu não me importo de ver cores nas pessoas. E é por isso que é tão complexo debater racismo, seja no espaço privado ou na esfera pública e política.

A questão é que não discutir as “cores” deixa tudo opaco, nude, sem vida, morto mesmo. Estou sendo muito obscura?

Acrescente gênero e classe e você terá um mix de assuntos que gosto de discutir, ler, debater, ouvir.

Mas há ainda um outro, tão importante quanto esses, a que tenho me dedicado nos últimos meses: a felicidade.

Sim, ela que é buscada incessantemente pela mulher ou pelo homem desde que nasce. Ela que é definida como “um estado durável de plenitude, satisfação e equilíbrio físico e psíquico, em que o sofrimento e a inquietude são transformados em emoções ou sentimentos que vão desde o contentamento até a alegria intensa ou o júbilo”.

Eu tenho militado pela felicidade, porque ela é mais um direito que me é negado, e ela é tão importante para que eu continue lutando pelos outros direitos.

Porque a militância diária enfraquece e adoece. O racismo mata de diversas formas, até nos tornarmos mortos em vida. Vidas negras importam. Vidas negras saudáveis importam. Vidas negras felizes importam.

Existir como ser humano negro neste país já é, em si, um ato político. Ser um ser humano negro e feliz no Brasil é um ato revolucionário.

Descolonizar-se não é só deixar de usar química no cabelo; é entender que preto não nasceu para ser forte, para aguentar tudo e para lutar 24 horas por dia. E que também precisamos dos momentos de paz e de felicidade.

Felicidade que pode vir simplesmente por se priorizar, sem que isso doa ou pareça egoísmo diante da luta.

Ser feliz ou, ao menos, buscar a felicidade também é honrar quem veio antes de mim. É pelo direito a ser livre até para ser feliz. E, afinal, não foi pela minha liberdade que tantos morreram?

Por isso, são imprescindíveis as marchas contra violência letal, contra o feminicídio das mulheres pretas, mas também as marchas pelo empoderamento estético. E isso não quer dizer que se esqueça que ainda estamos lutando por coisas básicas como o direito a permanecer vivos e que, por isso, é impossível comemorar o dia da consciência humana.

Felicidade está longe do conformismo muitas vezes religioso de se contentar com o que tem e esperar as coisas boas em um outro lugar.

Mas gosto do conceito da religião hindu, que trata da importância de uma disposição mental para a felicidade, e, sem ela, pouco adiantam os fatores externos, como riqueza. Apesar de eu achar que a riqueza ajuda muito.

O que mais eu tenho visto é uma militância doente, sofrendo, e pior, muitas pessoas que acreditam que a única forma de existir e militar é essa: testa franzida, punho cerrado, dor, amargura, desesperança. Viver assim é, no mínimo, autodestruição. Pior ainda é julgar o outro como um alienado, que não sente a dor dos irmãos, não faz crítica social, fraco.

A obra de arte “Four women”, da Nina Simone, me salvou, porque entendi que há tantas formas de militar quanto a quantidade de pretos no mundo.

Vocês acham que eu não sofro quando faço um Skype e consigo ouvir de Luanda os tiros disparados na Maré? Eu não sofro com a aprovação da PEC 181, que aumenta a culpabilidade da mulher? Eu não sofro quando Picciani é solto? Eu não sofri com o vídeo do William Waack ou com a revista que alisou o cabelo da Lupita?

Freud diz que a busca pela felicidade é fadada ao fracasso, e eu sinceramente não discordo.

O racismo faz um bom trabalho quando tira dos negros a dignidade de ser humano. O direito à leveza. O direito à felicidade.

Nesta semana do 20 de novembro, o meu maior desejo é que a gente consiga continuar enxergando beleza para além da dureza. Que não nos falte tempo para amar. Que nada nos tire o sono.

Se é fácil? Não! Essa é a forma certa? Não sei!

Mas prefiro pensar como pensa Monique Evelle: “se a coisa tá preta, a coisa tá boa”.

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