O preconceito nosso de cada dia

A psicanalista Vera Iaconelli, em seu artigo publicado hoje, 28/11/2017, na Folha de São Paulo, explicita a existência regular de nossos preconceitos. Precisamos aprender a lidar com eles sem produzir mais violências com a desculpa de querer acabar com uma violência.

“Mãe, o que é bicha?” Me perguntou minha filha aos 5 anos. Respondi que era um jeito de xingar meninos que namoram meninos. Ela insistiu: “que nem o tio fulano namora tio ciclano?” Sim. “Mãe, não entendi.” O que você não entendeu, filha? “Não entendi por que isso é um ‘xingo'”.

Para minha filha soava incompreensível xingar o outro de algo que, a seus olhos, não o desabonava: afinal, qual o problema de menino namorar menino? É duro ter que apresentar o preconceito para uma criança e mais duro ainda é quando a criança descobre, atônita, ser alvo dele. Lázaro Ramos traz em sua biografia (“Na Minha Pele”, ed. Companhia das Letras, 2017) a angústia de ter de explicar aos filhos pequenos o que é nascer negro no Brasil, diante da violência que os aguarda.

Nos iludimos ao imaginar que o preconceito seja erradicável. Somos preconceituosos de saída, uma vez que nosso cérebro economiza energia ao catalogar nossas experiências. Se você foi mordido por um cachorro, é provável que atravesse a rua na iminência de cruzar com um, mesmo que seja um inofensivo poodle.

Mas onde o outro “nos morde”, digamos assim? O que tememos diante do outro? O que tememos diante do sexual, do estético, do estilo de vida, da raça, da religião, enfim, das escolhas, dos desejos e das condições de existência do outro? Um amigo calvo dizia brincando que encontrar-se com um homem de peruca era uma espécie de afronta mútua. Como você exibe o que eu escondo ou esconde o que eu exibo?

Sempre teremos as diferenças inconciliáveis, mas o mal-estar que leva à violência, esse que mata e promove injustiças, revela nossa impossibilidade de lidar minimamente com nós mesmos. Revela a incapacidade de assumirmos nossa inconsistência e o fato de sermos estrangeiros a nós mesmos. No poema “Traduzir-se”, Ferreira Gullar tece os desfiladeiros desse desencontro com a gente mesmo: “Uma parte de mim é permanente, outra parte se sabe de repente” (GULLAR, 1980).

É doloroso reconhecer que há algo em nós que sempre nos escapará e que Chico Buarque eterniza em sua música “O Que Será? (À Flor da Pele)”, de 1976: “O que será, que será que dá dentro da gente, que não devia, que desacata a gente, que é revelia”.

É no contato com o outro que essa parte de mim emerge à revelia e me surpreende. Há formas diferentes de lidar com este temor. A eliminação pura e simples do outro como no caso dos jovens negros (mas servem travestis, mulheres, imigrantes…) pode dar a delirante sensação de que o perigo, sempre suposto como vindo de fora, está sob controle.

Há quem opte pelo isolamento para não ter o desprazer do encontro duvidoso (embora, é claro, logo perceba como a vida pode ser insuportável quando eliminamos também qualquer chance de haver o encontro prazeroso). Há quem assista injustiças e violências passivamente e negue que com isso tenha uma participação ativa no desenrolar dos fatos. Há os grupos coesos que buscam se defender das violências externas ignorando suas próprias violências internas.

O preconceito nosso de cada dia é inevitável. A questão é o que fazemos com ele, questão ética incontornável. Sair matando, criar leis nefastas, assistir impassível às violências são escolhas que revelam o ódio à nossa própria humanidade.

Aproveito para compartilhar a música de Chico Buarque e o poema de Ferreira Gullar, mencionados pela autora:

TRADUZIR-SE

Uma parte de mim
é todo mundo;
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera;
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta;
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente;
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem;
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?

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