Precisamos aprender mais sobre câncer

Meu pai descobriu-se com câncer no início deste ano. Há sete meses está hospedado em minha casa para fazer quimioterapia. De lá para cá, já ouvimos falar de diversos tratamentos alternativos, mas é preciso conhecer muito ainda sobre essa doença que vem nos abatendo, física e emocionalmente. Em todos os casos que já acompanhei, de grandes amigos que perdi, a pouca ou nenhuma dignidade no fim da vida, além de morte tão precoce são as duas coisas que mais me perturbam.

Lendo a entrevista com o médico Sergio Simon, novo presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (Sboc), fiquei impressionada (triste?!) com quatro pontos, além, lógico, de confirmar que estamos à mercê das indústrias farmacêuticas e, consequentemente, planos de saúde. Eis os 4 pontos que precisamos atentar:

1. “pacientes e médicos ainda sabem pouco sobre câncer” – em pleno século XXI!!!

2. “poucas pessoas sabem algo sobre câncer de intestino, um dos mais prevalentes no país” – É o câncer de papai e que assola minha família paterna.

3. “obesidade e sedentarismo são causas importantes de vários tipos de câncer, como de mama, de endométrio, de pâncreas”. – precisamos tratar a obesidade em nosso país. Eu já fui obesa e sei, na pele, que é uma doença geradora de outras tantas.

4. “o câncer, a partir de 2030, vai ser o maior responsável por mortes no Brasil” – a quantidade de pessoas que conheço ou conheci com esta doença já me mostra isso.

Abaixo transcrevo entrevista que saiu hoje, 18/11/2017, na Folha de São Paulo.

Pacientes acreditam em chazinhos curativos e médicos ainda não têm conhecimento suficiente sobre o câncer, o que atrasa tratamentos. Esse é o panorama oncológico no país, segundo Sergio Simon, que recentemente assumiu a presidência da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (Sboc).

Simon afirma que a desinformação de pacientes sobre o câncer não é uma característica exclusivamente brasileira e que é difícil fazer com que as pessoas entendam que tratamentos alternativos, como a fosfoetanolamina (conhecida popularmente como “pílula do câncer”), não têm ação significativa sobre a doença e não podem ser usados como terapias principais.

O novo presidente da Sboc, empossado em novembro, diz também que, além de clínicos gerais precisarem de mais treinamento oncológico, é necessário haver mais multidisciplinaridade na área.

Folha – Recentemente a oncologia clínica foi reconhecida como especialidade pelo Conselho Federal de Medicina. Qual a relevância prática disso?

Sergio Simon – A importância prática é que o câncer, a partir de 2030, vai ser o maior responsável por mortes no Brasil. Então ainda precisamos aumentar muito o número de oncologistas no país. Temos pouco mais de 2.000 profissionais para cuidar de 200 milhões de pessoas. É pouco. Como a população está vivendo mais tempo e a incidência de vários tipos de câncer tem aumentado, vamos precisar treinar e certificar um grande número de profissionais.

Faltam oncologistas no país?

Sem dúvida. Há cidades relativamente grandes que ainda não dispõem de um serviço estruturado de oncologia. O acesso à radioterapia é outro problema. Temos filas de espera que ultrapassam seis meses. Evidentemente, é péssimo para o paciente, porque a doença não fica parada.

As faculdades de medicina têm alguma relação com isso?

As faculdades no Brasil ainda não incluíram a oncologia como um currículo específico no currículo médico. Algumas já têm cursos de oncologia estruturados e os estudantes têm pelo menos uma ideia básica da área. Mas acho que o sistema como um todo precisa melhorar. É preciso que os não oncologistas, principalmente os clínicos gerais, saibam mais oncologia do que eles sabem. Muitas vezes o paciente está na frente do médico e não tem os exames pedidos de maneira correta, o que impede um diagnóstico precoce com maior chance de cura.

Recentemente você se tornou presidente da Sboc. Quais os planos da gestão?

Uma das funções da sociedade, provavelmente a mais importante, é a interação junto às entidades governamentais para estabelecer tratamento oncológico de qualidade no sistema público. Para que o acesso seja o menos díspar possível em relação ao sistema privado. As novas drogas são caríssimas e os benefícios que elas trazem às vezes são de menor importância para o paciente. Essa análise do que vale a pena pagar, o que se traduz num benefício real de sobrevida e qualidade de vida para o paciente, é um exercício difícil. Mas o que não podemos permitir é que várias doenças no sistema público não tenham nenhum tratamento moderno à disposição. Um exemplo é o câncer de rim e o câncer de pulmão com mutação genética. São doenças que no sistema público de saúde estão totalmente desassistidas.

Totalmente?

Elas têm um tratamento totalmente fora de qualquer padrão internacional. O câncer de pulmão com mutação do EGFR é um câncer que, em geral, ocorre em não fumantes. Essa doença com mutação tem um tratamento bastante específico feito por via oral, que é altamente eficaz, bem menos tóxico, mas é um tratamento ainda caro, da ordem de R$ 4 a R$ 5 mil por mês. A maioria dos pacientes no sistema público nem sequer é testada para a mutação.

Economicamente, é possível atualizar tratamentos sem onerar de forma desproporcional o sistema de saúde?

A análise farmacoeconômica evidentemente pende para um aumento dos gastos. Mas medicações mais modernas são mais eficazes e você precisa levar isso em consideração. Para tratar um tipo de câncer de mama, as pacientes com doença metastática até dez anos atrás viviam em média de 20 meses. Com o tratamento moderno, elas passaram a viver 56 meses. Uma mulher poder viver cinco anos em média com doença metastática ao invés de um ano e meio é muito importante. Sabemos que a gestão pública do dinheiro não é muito eficaz. Talvez tenha um trabalho de gestão melhor que precise ser feito, talvez pela centralização de compras para o país inteiro, pela construção de laboratórios centrais específicos para testagem rápida dos tumores. Vi isso no Nepal.

Você viu algo que poderia servir de inspiração para o Brasil?

A testagem de tumores de pulmão para mutação do EGFR é feita para todos os pacientes a um custo muito barato em um laboratório na Índia. O tratamento que aqui sai por R$ 4 mil lá custa US$ 60 por mês, cerca de R$ 200. Se o governo estivesse disposto a sentar com os laboratórios e comprar a medicação para o país inteiro, acho que daria para chegar em preços bem próximos disso.

Mas existe a vontade por parte dos laboratórios de fazer esse tipo de acordo?

Acho que é possível. Um laboratório que faz anticorpos não vendia para o governo, que então decidiu pagar o tratamento em 2014. O preço diminuiu em 70% para a compra centralizada para o governo. Sentar com o laboratório e falar que os pacientes serão tratados e é necessário um preço especial para o sistema público é uma articulação política importante que precisa ser feita.

A população em geral desconhece informações corretas sobre o câncer?

Isso é universal. As pessoas sabem pouco e acabam inventando histórias e fantasias. Chamou a atenção nessa pesquisa [estudo recente da Sboc] que poucas pessoas sabem algo sobre câncer de intestino, um dos mais prevalentes no país. Obesidade é outra coisa importante. As pessoas precisam saber que obesidade e sedentarismo são causas importantes de vários tipos de câncer, como de mama, de endométrio, de pâncreas.

Qual o mito que você mais escuta no dia a dia clínico?

A força dos tratamentos alternativos, como chazinhos e a fosfoetanolamina, tem uma influência grande sobre a população. Até podem ser usados, mas isso não deve fazer com que o paciente evite tratamentos tradicionais.

Esse tipo de mito de que tratamentos naturais conseguem curar é ruim. Temos uma grande dificuldade de fazer as pessoas entenderem que a fosfoetanolamina não tem atividade em praticamente nenhum paciente. O estudo no Icesp mostrou que é uma droga sem atividade antitumoral e a Assembleia Legislativa de SP faz uma CPI para saber mais sobre a fosfoetanolamina. Virou um problema político e não médico-científico.

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