Sem reconhecer vieses que sustentam o racismo, jamais teremos avanços

Artigo de Reinaldo José Lopes, publicado hoje, 05/11/2017, na Folha de São Paulo.

Vale a leitura!

Começo contando uma situação inacreditável, talvez o exemplar mais acabado do gênero “é rir para não chorar”, que eu presenciei anos atrás, ao sair de um boteco numa área nobre de São Paulo. Na nossa turma daquela noite havia um amigo negro que eu não hesitaria em descrever como um gênio: duas graduações diferentes concluídas em faculdades de elite da capital, fluente em inglês, espanhol, francês e alemão, hoje um membro destacado do corpo diplomático brasileiro.

Meu amigo parou um instante na calçada e, ato contínuo, uma senhora que tinha acabado de estacionar foi colocando as chaves do carro nas mãos dele, assumindo que ele era o manobrista do estabelecimento. “Não, não”, avisou um funcionário do boteco, também negro, “esse crioulo aí não é o manobrista, é aquele outro crioulo lá“.

Esse episódio de teatro do absurdo, cuja lógica pornograficamente perversa ainda me deixa meio zonzo sempre que paro para pensar nele, é um exemplo escancarado de algo que os psicólogos sociais têm demonstrado seguidamente faz algum tempo: os vieses inconscientes ligados à discriminação racial podem ser muito poderosos. Em vez de serem verbalizados de um jeito quase didático, como no caso do meu amigo, tais vieses normalmente influenciam de forma sutil boa parte do nosso comportamento –inclusive a velocidade e a precisão com as quais martelamos o teclado de um computador.

Essa, em suma, é a conclusão de um artigo publicado recentemente por Tom Stafford, professor de psicologia e ciência cognitiva da Universidade de Sheffield (Reino Unido), no site “The Conversation”. Stafford aplicou uma metodologia clássica para analisar os dados do Project Implicit, uma iniciativa da Universidade Harvard para entender os vieses sociais inconscientes de gente do mundo inteiro.

O conceito por trás do Project Implicit é bastante simples: esse tipo de viés, ou preconceito, tende a aparecer quando baixamos a guarda do controle consciente, em situações que envolvem pressão de tempo ou falta de treinamento.

Eu fiz o tal teste (e qualquer um pode fazê-lo, no endereço implicit.harvard.edu). Funciona assim: as letras “E” e “I” do teclado do computador ficam associadas a imagens de rostos negros e brancos, respectivamente (no meio do teste, trocam-se as associações). Primeiro você tem de apertar a letra equivalente às faces de negros quando aparecerem palavras com sentido positivo (“céu”, “feliz” etc.); já a letra que equivale às caras brancas deve ser apertada quando aparecem palavras negativas (“inferno”, “nojento” e coisas do tipo). Depois, os termos associados a cada raça são trocados de novo. O programa, enquanto isso, mede também as taxas de erro do participante –a instrução é responder da forma correta o mais rápido possível.

Stafford analisou os dados dos participantes dos países da Europa. Resultado: todos –rigorosamente todos– cometem mais erros quando a ordem é associar termos positivos com os rostos de ascendência africana. Aliás, isso vale também para os habitantes de todos os Estados americanos (ninguém ainda fez a conta no caso do Brasil).

Meu resultado pessoal? Um viés “negativo moderado” diante das caras negras. Negar a existência de racismo institucionalizado é fácil. Difícil é contrariar evidências experimentais claras de como ele perpassa a cultura do Ocidente moderno.

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