Mas não se matam cavalos?

Um livro perturbador caiu em minhas mãos na quarta-feira passada. Adoro essas surpresas, porque é bom ler coisas diferentes, que não estariam naturalmente em meu caminho, se não fosse o inusitado.

Em um bate-papo com um colega de trabalho, professor de filosofia, tomei conhecimento do início de Mas não se matam cavalos?, de Horace McCoy. A história já começa com Glória assassinada pelo seu amigo Robert, que está sendo julgado por isso. Ambos são os protagonistas da novela que será contada com o recurso do flasback.

Ouvindo meu colega e folheando o livro, fiquei impressionada com a trama que ele anunciava, com a aridez das palavras e com a simplicidade dos períodos curtos, certeiros, que rapidamente visualizei nas primeiras páginas. Fui abduzida de primeira. Pedi emprestado para lê-lo.

As menos de 130 páginas, que não dariam 40 em tamanho A4, foram rapidamente devoradas, mas isso não significa que foi uma leitura fácil. Ao contrário. O texto é rascante do início ao fim. Árido, duro, intensamente desconfortável.

Por que não o descartei, então?

Porque o que é retratado ali precisa ser pensado hoje. A leitura foi imensamente desconfortável por apresentar questões perturbadoras e desconcertantes. A frieza das palavras e a aridez da narrativa fazem parte da trama. Estão em total consonância com a dureza da vida dos personagens. E o incômodo aumentava conforme mergulhava na temática que se desenrolava aos meus olhos.

A novela se passa poucos anos após a quebra da bolsa americana de 1929. Naquela época, as maratonas de dança eram moda nos EUA. E é exatamente durante uma dessas maratonas, algo em torno de 1000 horas de dança com brevíssimos intervalos para descanso, alimentação e higiene pessoal, que a história se desenrola.

O que me impactou profundamente foi perceber o absurdo da exposição dos pobres, que só buscavam no evento – no qual dançavam até cair – uma forma de sobrevivência, enquanto os ricos se deleitavam e se divertiam olhando aqueles que se submetiam a tamanha humilhação, sem enxergar o sofrimento deles. A oposição entre esses dois grupos sociais é explícita em cada situação degradante narrada e se confirma nas falas do responsável pela maratona, que, de um lado, cativa patrocinadores, faz propagandas, promove espectáculos, para girar o motor de um negócio bastante rentável; de outro, expõe, de forma humilhante, os competidores, como se fossem animais a quem dão ração para engordarem e ficarem mais “apetitosos”: “As senhoras não compreendem direito – disse Socks. – Não há nada de degradante nesta competição. Ora, os jovens adoram. Todos ganharam peso desde que a competição começou…” (2007, p. 91)

Ver que na animalização do pobre há uma canibalização social visível mas ignorada, porque não interessa aos estabelecidos mudar a sua situação; ver a conjunção de fatores que leva uma pessoa ao desespero para chegar a pedir que alguém a mate, porque nem coragem nem força tem para fazer isso por conta própria, nem muito menos tem condições de refletir sobre o absurdo de querer tirar a própria vida; ver, ainda, que a justificativa para a morte é o fato de a vida ser tão dolorosa, tão sofrida, tão indigna, que acabar com ela é condição única de exterminar todo o sofrimento… tudo isso provocou em mim náuseas e um sentimento de não pertencimento desta humanidade patética, cruel e antropofágica.

A maratona de dança nada mais é do que uma claríssima metáfora da luta pela sobrevivência, na qual a única certeza é a morte, porque a chance de mudar de status social é quase nula. Se a morte é certa e o sofrimento, absurdo, por que não antecipá-la? Por que não sacrificar uma vida que nada mais tem a acrescentar?

Robert justifica o assassinato de Glória, para si mesmo, lembrando-se do sacrifício de Nellie, sua égua, quando quebrara a pata. Ele, criança, entendeu que mantê-la viva seria prolongar sua dor e sofrimento. Manter, da mesma forma, Glória viva também seria prolongar sua dor e sofrimento.

“Mas não se matam cavalos?”

Sim, matam-se cavalos. E humanos colocados à margem de uma dignidade mínima também. Todos os dias! Embora, na maioria das vezes, isso não ocorra com um tiro certeiro na cabeça.

McCoy, Horace. Mas não se matam cavalos? Porto Alegre, RS: L&PM, 2007.

OBS.: Nos tempos loucos que vivemos hoje, é importante destacar que este livro, em momento algum, faz apologia a suicídio ou a assassinato. Ao contrário! Ele levanta uma reflexão social sobre o ser humano e faz uma crítica contundente à desigualdade social e às condições precárias e desumanas nas quais os pobres (sobre)vivem.

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