Digo não à censura! Digo sim ao diálogo!

Assuntos polêmicos são sempre complicados de serem comentados e debatidos. Tenho preferido me calar diante de muitos deles ultimamente, mas acho que isso vem me fazendo mais mal do que correr o risco de ser apedrejada em praça pública por dizer o que penso. Está muito difícil viver nesta Nova Idade Média…

São vários os temas que andam borbulhando em minha cabeça há dias, semanas, meses… mas vou falar agora apenas de um deles, talvez o mais recente (quer dizer, mais recente não, porque já surgiu outro mais louco, ops, mais novo. Acabou de sair do forno! Dá para adivinhar? A “Cura Gay”!!! Esse, porém, vou deixar pra pensar e escrever mais para frente… É loucura demais para um país só!).

Então, vou escrever, agora, apenas sobre um tema recente: a CENSURA à exposição Queermuseu: Cartografias das diferenças na arte brasileira, lá em Porto Alegre. Esse assunto, porém, se desdobra em outros como a censura em si, em todos os seus aspectos, o papel da ARTE, os TABUS sociais e os PRINCÍPIOS e VALORES de certas FAMÍLIAS.

Quero deixar bem claro de antemão –  para que você, leitor, saiba em que terreno vai pisar ao me ler – que sou totalmente contra a censura.

Também quero esclarecer o lugar de onde falo:

1. É verdade que falo como leiga até para definir arte e censura, mas me coloco aberta ao diálogo como uma pessoa desejosa de aprender sempre mais sobre a vida e sobre como nos inserimos nela.

2. Não vi a exposição in loco, mas não só li diversas opiniões a favor e contra o seu encerramento, como também pesquisei e vi diversas obras (principalmente as mais polêmicas) nos grandes jornais e em sites confiáveis da internet. (É bom até mesmo, para quem tiver interesse, fazer uma boa pesquisa para verificar quantas imagens foram deturpadas e/ou nem faziam parte dessa exposição.)

3. Parto de um olhar de quem nasceu e foi criada na Igreja Católica Apostólica Romana, atuante e praticante por mais de 20 anos, até o início dos anos 2000, mas hoje, embora tenha fé inabalável na existência de Deus em sua forma cristã, não frequento mais igreja alguma por opção.

Então, vamos lá!

Às vezes, acho que as pessoas confundem o sentido maior de Arte. Arte, com A maiúsculo, não é somente (muitas vezes nem é!) o quadro bonito que escolhemos pra colocar na parede de nossa casa ou o vaso, a escultura, que nos esforçamos para comprar e expor na mesa de centro da sala. Essas produções, normalmente belas, têm valor de objetos de decoração.

Arte, na verdade, não é, necessariamente, sinônimo de belo, agradável, aprazível. Arte pode gerar uma sensação boa. Entretanto é mais interessante quando perturba, incomoda, perfura, desconstrói.

Se o homem descobriu e produziu tudo (de bom e de ruim) que temos e sabemos até agora, se ele se espalhou por todo esse mundão e desejou ir à lua, a Marte… não foi porque estava tranquilo, feliz e acomodado em sua vidinha pacata numa terra aprazível. Algo realmente o perturbava (e ainda o perturba), instigava (e ainda o instiga!) para ir sempre adiante. É por isso também que o homem produz Arte. Como disse Ferreira Gullar, “a arte existe porque a vida não basta”.

Arte, então, tem este papel na vida humana: o de levar o homem além da sua vida, para muito além do seu mundo concreto, ordinário, e fazê-lo enxergar as entrelinhas, os subterrâneos e atingir os pontos que mais nos incomodam e nos calam. Arte, em sua essência, tem o papel de provocar, inquietar, desestabilizar e de fazer o homem pensar, refletir, reorganizar-se (ou não!) para seguir crítica – e não acriticamente – adiante. Arte pode ser uma pedra no meio do caminho ou dentro de nosso sapato. Ela nos para, incomoda, fere, machuca e, por isso, nos faz ruminar, por muito tempo, o quanto os nossos pés e nossos caminhos são importantes e precisam ser bem cuidados.

Mas há pessoas que preferem não enxergar essas pedras. Às vezes, preferem, mesmo com ferimentos, fingir que elas não existem. As pedras podem ser tabus…

Existem muitos tabus por aí, por aqui, por todo lugar… Nas nossas cabeças. Tenho medo deles…

Tenho medo do medo que as pessoas têm de enfrentar seus desejos mais íntimos e suas limitações para dialogar e entender o outro em uma sociedade que está sempre pronta para julgar e apontar o dedo para as traves que estão nos olhos alheios. Tenho medo das pessoas que se escondem – na maioria das vezes sem consciência do que o ato em si representa – atrás de roupas pudicas, dogmas e preceitos com base em “moral e bons costumes” idealizados (reprimindo e fugindo do que lhes amedronta por temerem não se controlar?!?) . Tenho medo das pessoas que preferem seguir o ditado “o que os olhos não veem o coração não sente” e, assim, costumam jogar para debaixo do tapete os problemas a enfrentá-los, e fingem viver num mundo cor de rosa onde a culpa é sempre dos outros: os impuros, depravados, desprovidos dos bons valores que regem a… Família! E o que rege os princípios dessas pessoas é a eterna vontade de extirpar o mal, para não contaminar as pobres crianças puras dessas famílias tão dignas, formadas por homens e mulheres castos, íntegros, ilibados.

Mal sabem eles – ou sabem e não querem admitir porque não querem expor suas limitações e fraquezas – que esconder o que existe no mundo, ou pior, fingir que não existe e viver numa bolha em pleno século XXI, com todo acesso que temos hoje à informação, é dar um tiro no próprio pé. É querer tapar o sol com a peneira, e deixar que mais pessoas sejam manipuladas numa vida acrítica.

Percebo claramente, ao longo de minha vida profissional trabalhando com crianças, adolescentes e jovens, o que é a falta de diálogo entre pais e filhos. Ordem por ordem, preceitos impostos, proibições, porque tem de ser assim ou assado, geram incongruências que podem levar a consequências irreparáveis.

Alguns exemplos?!

Tempos atrás tive uma aluna que não podia cantar nada que não fosse de Jesus porque seus pais não permitiam. Sua voz era espetacular! No entanto, quando foi me enviar um trabalho por email levei um susto e quase não o abri, pensando que era vírus: no endereço havia, nada mais nada menos, que a expressão “paunocu”.

Será que seus pais sabiam disso?

Leio, há anos, redações de alunos nas quais enxergo claramente uma visão adestrada. A moral e os bons costumes da família cristã se impõem nas propostas de intervenção como a salvação do mundo. No entanto, quando vejo esses mesmos alunos nos corredores conversando entre si, falando palavrões como o ar que respiram e escuto pedaços de suas histórias, de suas pegações, festas etc. chego a enrubescer. Eu ainda fico vermelha!

Será que seus pais sabem disso?

Muitos pais proibiram, na última campanha, a vacinação de suas filhas contra o HPV, para não as influenciarem no início da tão temida por eles relação sexual, mas não devem sequer imaginar que não são poucas as meninas novinhas que já estão por aí fazendo somente sexo anal para se manterem virgens. Sim… Virgens! E pior! Estão se contaminando com o HPV no ânus.

Será que os pais têm alguma noção disso?

Alunos e alunas estão se descobrindo homossexuais, mas sofrem tremendamente porque não sabem lidar com isso. Mesmo com a abertura que já há, temem serem descobertos e condenados por seus familiares. Eles mesmos se julgam, se torturam, se punem… Vivem atormentados. Não é fácil para um jovem se sentir diferente e motivo de decepção e sofrimento da família.

Será que os pais têm consciência de que isso não é sem-vergonhice?

Exemplos assim me fazem pensar que a culpa que muitas famílias jogam nos outros é, sempre, a desculpa que criam para se redimirem das próprias falhas e ausências no cumprimento de seu papel na criação dos filhos e na manutenção de suas famílias. Como criei e ainda crio, no diálogo constante, dois filhos já quase adultos, mas não totalmente independentes, acho que posso falar disso aqui com alguma propriedade.

A censura, a proibição nua e crua nada ensina. Apenas tira do foco o problema que as pessoas que a desejam, as famílias que a defendem – pela moral e bons costumes – não sabem enfrentar.

Para mim, os tabus, escondidos e esquecidos debaixo do tapete, é que são prejudiciais, e não exposições como esta em questão. Censura de qualquer criação, de qualquer produção artística significa, a meu ver, assumir que não temos competência para refletir sobre a nossa humanidade ou para discutir civilizadamente tudo o que envolve o ato de viver.

Famílias, cegas com o temor de perderem o controle de seus entes porque sabem que a proibição é uma linha tênue para o aumento do desejo e para a busca por válvulas de escape, recorrem, desesperadas, ao aumento da proibição para tentarem manter a ordem. Não estão se dando conta, porém, de que praticamente cada membro pertencente a elas carrega hoje em suas mãos um computador mais potente do que o que levou o homem à lua. E isso significa que todos podem acessar o que quiserem por meio de um simples smartphone na segurança e privacidade de seu quarto, de seu banheiro, da casa do melhor amigo de infância ou até mesmo enquanto estão na igreja, no trabalho ou na sala de aula.

O grave problema que está a nossa frente é a falta de diálogo, a falta de leitura, a falta de cultura! O problema não é a Arte.

Grande parte das condenações à exposição recaíram sobre obras que mostram alguma situação sexual: pedofilia, zoofilia, homossexualidade infantil. A condenação vem com o argumento de que fazem apologia a essas coisas e de que não se pode admitir que crianças e famílias sejam mal influenciadas. Tenho me descoberto, a cada ano que passa de minha vida profissional, uma ignorante da quantidade de coisas que meus alunos sabem e a que têm acesso. Muitas vezes, sou surpreendida com perguntas que nunca me passaram pela cabeça. Se antes a curiosidade da juventude era sanada com pequenas conversas entre pares, sem aprofundamento por falta de conhecimento ou, ainda, na limitação de enciclopédias, revistas Seleções, divagações e idealizações, agora tudo – T U D O – está acessível em palavras, imagens, vídeos, áudios, explicados ou mostrados por gente de todo tipo. O acesso a tudo isso sem a oportunidade de dialogar, sem a oportunidade de discutir, debater, tirar dúvidas, falar o que passa na cabeça (bem diferente de ser censurado, calado e punido!), para poder refletir sobre o que é certo e o que é errado, o que é bom e o que é ruim para si mesmo e para o outro, é que pode produzir monstros, tarados, desequilibrados, intransigentes, malucos, idiotas, preconceituosos, manipulados.

Uma exposição como a que foi censurada pode ser uma porta para o diálogo tão ignorado. Pode promover a abertura para que perguntas caladas por medo, precaução e vergonha sejam feitas. Pode permitir que as famílias realmente preocupadas com a educação e a ética ensinem a seus filhos princípios e valores dignos da vida humana em sua essência.

Levo muito a sério uma coisa em minha vida e a estou colocando em prática, por exemplo, neste momento em que escrevo: o exercício crítico para uma mente sã é tão necessário quanto o exercício físico para um corpo são. Precisamos pensar! Precisamos falar! Não precisamos nem podemos (nos) calar.

Não lutemos pela censura do que nos incomoda e nos fere. Lutemos pela visão crítica e reflexão constante. Não fechemos os olhos para o que está aí na nossa porta. Discutamos abertamente. Somente assim poderemos ter um mundo melhor.

Utopia?!

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