Novas edições resgatam fábulas e contos de fadas em versão para adultos

Folha de São Paulo, 08 de setembro de 2017

Por Bruno Molinero

RESUMO Reedições de fábulas de Esopo e de contos de Andersen traduzidas das respectivas línguas originais revelam narrativas desprovidas do verniz cândido e edificante que lhes foi aplicado em versões modernas. Público-alvo não era o mirim, e textos, ao menos para o autor grego, constituíam peças de persuasão.

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Ilustração de J. J. Grandville para a edição de 1838 da fábula "A Cigarra e a Formiga", de La Fontaine
Ilustração de J. J. Grandville para a edição de 1838 da fábula “A Cigarra e a Formiga”, de La Fontaine

Faça um teste rápido: entre no YouTube ou no site de alguma grande livraria e busque por “Patinho Feio”, “A Cigarra e a Formiga” ou “A Lebre e a Tartaruga”. Se você não tem filhos ou nunca passou por essa experiência, prepare-se.

O que parece inocente logo se revela uma passagem só de ida para um universo povoado por bichos coloridos que sorriem de orelha a orelha, como se tivessem fugido de alguma caixa de Pandora criada pela Galinha Pintadinha ou por alguém que misturou algodão-doce com Prozac.

Os personagens resumem o papel que fábulas e contos de fadas desempenham hoje –o de histórias menos preocupadas com a qualidade literária do que com a distração hipnótica de bebês e crianças. Essas narrativas fazem as vezes de babás, de quem se espera que evitem o choro e as perguntas fora de hora feitas pelos pequenos. E que saiam de cena quando caem as cortinas sobre a infância.

Só que nem sempre foi assim. Quando essas tramas foram criadas, e algumas delas datam da Antiguidade, nada tinham da ingenuidade atual.

As populares fábulas do grego Esopo, por exemplo, não pretendiam fornecer pilares para uma educação moral das crianças. Inscreviam-se, na verdade, em uma longa tradição narrativa da Grécia antiga, com origem provável na literatura oral da Ásia. Seu viés era, antes de tudo, filosófico –ou seja, nada tinham de passatempos.

O mesmo ocorre com grande parte dos contos clássicos que recebem hoje o título genérico de “contos de fadas”. Populares na Europa pré-literária, onde poucos sabiam ler, consistiam em criações coletivas, sem autor definido, passados no boca a boca por gerações. Só depois foram recolhidos em livros por autores que nada tinham de infantis.

Vale lembrar, por exemplo, que a Rapunzel concebida pelos irmãos alemães Grimm fica grávida do príncipe enquanto está presa na torre. Ou que, na leitura do francês Charles Perrault (1628-1703) para “Chapeuzinho Vermelho”, o Lobo acaba por devorar a menina.

Dois livros lançados pela editora 34 ajudam a lançar luz sobre o descompasso entre as raízes de tais narrativas e seu papel social hoje: “Fábulas, Seguidas do Romance de Esopo” [trad. André Malta (Fábulas) e Adriane da Silva Duarte (Romance de Esopo), 280 págs., R$ 55], e “O Patinho Feio e Outras Histórias” [trad. Heloisa Jahn, 96 págs., R$ 49].

O primeiro compila 75 fábulas creditadas a Esopo, cada uma em duas versões: uma traduzida diretamente do grego e outra no idioma original. O volume inclui o “Romance de Esopo”, até aqui inédito em português. Misturando biografia e ficção, o texto sem autor definido narra com tintas mitológicas a vida do personagem que, acredita-se, viveu no século 7 a.C. ou 6 a.C.

Thora Hallager
O escritor dinamarquês Hans Christian Andersen em retrato de outubro de 1896
O escritor dinamarquês Hans Christian Andersen em retrato de outubro de 1896

Já “O Patinho Feio” reúne cinco contos de Hans Christian Andersen (1805-75) traduzidos do dinamarquês. Considerando que o escandinavo viveu no século 19, há uma diferença não só cultural, mas de pelo menos 2.500 anos entre as obras. Mesmo assim, sob a ótica do contraste entre o contexto em que foram produzidas e o verniz açucarado que as recobre na atualidade, podem travar um diálogo frutuoso.

PAI DA FÁBULA

Talvez o caso mais interessante seja o de Esopo, um daqueles autores gregos que ninguém sabe se existiram de fato. Embora seu nome surja em Heródoto, em peças de Aristófanes e até em Platão e Aristóteles, tudo indica que o escritor não tenha sido aquilo que hoje entendemos por autor –alguém que de fato escreveu tudo o que a ele se credita.

Como mostra o tradutor André Malta na apresentação, Esopo provavelmente já era na Grécia antiga o “pai da fábula”, figura a quem se atribuía qualquer minitrama moralizante disseminada oralmente.

Em geral, essas histórias eram breves relatos ou pequenas cenas dramáticas das quais se podia tirar alguma lição ou reflexão. As mais famosas são protagonizadas por animais antropomorfizados, que falam e têm sentimentos humanos (como “A Tartaruga e a Lebre” e “A Cigarra e a Formiga”), mas Malta diz que cerca de 25% delas giram em torno de figuras históricas ou mitológicas e até do próprio Esopo.

Naturalmente, essa parcela minoritária tem menos apelo para o leitor atual, visto que muitas das referências a deuses gregos e a políticos da época passam batidas.

De toda forma, as fábulas passavam longe do passatempo. Eram primordialmente ferramentas de discurso. Esopo queria mostrar que é impossível fugir das fatalidades? Então narrava a relação dos macacos com seus filhos. Pretendia salvar o próprio pescoço da morte? Pois no “Romance de Esopo” tenta dissuadir seus algozes falando de uma águia e de um escaravelho.

Para ele, a fábula era uma maneira de fazer com que as pessoas chegassem à verdade ou compartilhassem de seu ponto de vista. Sócrates fazia isso com perguntas. Esopo usava pequenas narrativas, que não tinham qualquer preocupação com a figura da criança.

TOM MACABRO

Andersen tampouco tinha em mente leitores mirins ao escrever. Hoje tido como pai da literatura infantil, costumava inventar suas histórias partindo sempre da estrutura e do conceito de antigas narrativas orais.

Alguns dos contos reunidos na edição recém-lançada são mais “fofos” e parecidos com as versões de hoje, caso de “Polegarzinha” e “A Roupa Nova do Imperador”.

Outros chegam a ser macabros. A mulher que dá título à segunda trama, “História de uma Mãe”, perde os olhos para tentar salvar o filho da morte. Já a menina dos fósforos da intriga homônima é encontrada morta por congelamento na noite de Ano-Novo. Ao contrário das variantes mais famosas, a mãe do Patinho Feio rejeita o filhote: “Que bom se você desaparecesse!”, grita.

Isso não quer dizer que Esopo e Andersen ignorassem deliberadamente os leitores mirins. Ocorre apenas que o conceito de infância mal existia à época deles.

Até a Idade Média, a criança era integrada ao mundo dos adultos assim que conseguia independência física. O quadro só muda a partir do fim do século 19, quando os pais desenvolvem um sentimento de proteção maior em relação aos filhos. Direitos específicos, só no século 20. A Declaração dos Direitos da Criança da ONU data de 1959.

É por isso que, em vez de serem didáticos, os textos de Esopo e Andersen acabam se aproximando mais das narrativas míticas ou até dos aforismos. Muitos se baseiam ainda na lógica do arquétipo e guardam parentesco com ritos de sociedades primitivas.

Só na virada para o século 20 é que os contos seriam adaptados para o público infantil, na literatura e posteriormente no cinema, aqui notadamente pelas mãos e pincéis de Walt Disney (1901-66). E caíram como uma luva, pois deles transbordavam mensagens edificantes que seguiam os programas pedagógicos da época.

Um caso que ilustra essa “repaginada” é o de “A Cigarra e a Formiga”. Se a fábula hoje é sinônimo de estímulo ao trabalho árduo (seja como as formigas para não se dar mal como as cigarras), a nova tradução mostra que talvez não fosse isso o que corria pela cabeça de Esopo.

Não há, no original, qualquer sugestão de que a labuta seja superior à vadiagem. A formiga só recomenda à cigarra que continue se dedicando às artes, mesmo no inverno. O autor arremata: “[…] ninguém deve se descuidar, para não se afligir nem correr perigo”. Nem um pio sobre carteira assinada.

SEM BOM-MOCISMO

Os livros da editora 34 não são exceção para quem deseja fugir do bom-mocismo que domina o gênero hoje. O mercado editorial brasileiro tem se dedicado a publicar versões originais de contos clássicos e de fábulas há mais de uma década.

A extinta Cosac Naify lançou títulos como “Contos da Mamãe Gansa ou Histórias do Tempo Antigo” (Charles Perrault; 2015), “Contos Maravilhosos Infantis e Domésticos” (Irmãos Grimm; 2015), “Fábulas Selecionadas” (Jean de La Fontaine; 2013) e “Esopo: Fábulas Completas” (2013).

A Zahar também tem uma linha dedicada a clássicos, com destaque para “Contos de Fadas”, de 2004, que reúne 26 textos canônicos traduzidos do inglês –de “A Pequena Sereia” a “João e o Pé de Feijão”.

Há ainda obras que tratam do contexto de criação desses enredos. “O Lado Sombrio dos Contos de Fadas” (Abril, 2016), de Karin Hueck, traça as origens históricas de contos dos irmãos Grimm, de Andersen e de Perrault. Para uma visão mais mitológica e psicológica, é difícil fugir de “A Psicanálise dos Contos de Fadas”, de Bruno Bettelheim (Paz e Terra, 1976).

Até que ponto essas versões “hardcore” devem ser mantidas ao lado de objetos pontiagudos e produtos de limpeza, fora do alcance de crianças? Pela complexidade da linguagem e dos temas tratados, pode-se afirmar que são mais recomendadas para adultos.

Mas é impossível ignorar que meninos e meninas se encantam há décadas por essas histórias, que combinam doses de angústia, medo, paixão, heroísmo, princesas, cavaleiros, animais falantes e tudo o que atrai a atenção mirim.

Cabe ao pai ou ao professor, portanto, adaptar a linguagem complexa e os temas espinhosos, levando em consideração a maturidade e a idade do ouvinte. E decidir: o sapatinho da Cinderela simplesmente não vai servir nas irmãs malvadas ou elas irão cortar o dedão e o calcanhar para que os pés ensanguentados entrem no calçado?

BRUNO MOLINERO, 26, é repórter da revista sãopaulo e mantém o blog Era Outra Vez, sobre literatura infantojuvenil, no site da Folha.

Esta matéria está disponível aqui.

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