Meu All Star azul

Artigo de Maria Ribeiro, publicado no jornal O Globo, em 06 de setembro de 2017.

Um ser humano de tênis é um ser humano sem problemas ou traumas de Sófocles. Quem usa tênis é bigger than others

Nunca usei All Star. Nem de cano alto, nem de couro, nem o branquinho mais básico, e muito menos o azul icônico da Cássia Eller que já vem com a trilha do Nando, o Reis, tocando bonito no fundo da cena em Laranjeiras. Não que eu não tenha tentado. Tentei muito. Usar tênis sempre me pareceu o nirvana da autoestima no departamento “look do dia”. A pessoa se sentir forte, e grande, grande no sentido inverso, grande pra dentro, grande querendo dizer nobre, nobre querendo dizer bondoso, transcendente — melhor parar porque quando eu começo a expandir o pensamento assim nessas tentativas de ser compreendida vou mais longe do que os stalks no Instagram: às vezes termino em Descartes, às vezes tô debruçada sobre a vida do primo da tia da avó da namorada atual do meu ex-namorado da época da PUC.

Bom, voltando: a pessoa se sentir forte, com um pisante rasteiro, rasteiro no sentido de rente ao chão, de raiz, de perto da rua, de perto da vida, isso pra mim sempre foi o túmulo da psicanálise. Um ser humano de tênis é um ser humano sem problemas ou traumas de Sófocles. Alguém que certamente nunca comeu um La Basque de chocolate choc-chip inteiro e direto do pote de um litro assistindo a “Billions” ou teve uma raiva assassina do amiguinho do seu filho de sete anos que não convidou ele pra festa. Não tem aquela música dos Smiths? “Some girls are bigger than others”? Então. Pra mim é: quem usa tênis é bigger than others. O tênis é a escrita simples, é o Manoel de Barros, é a democracia, o amor correspondido, é o cabelo repartido da criança pequena e humilde no domingo de culto.

Na infância, passei pelo Conga e pelo Bamba, e já adolescente fui devota primeiro do Reebok e depois do New Balance e em seguida do Redley na mesma proporção em que amava A-ha e revezava o projeto de casamento entre Tom Cruise e Fábio Jr. A vida no século XX, parceiro, era tão doce e profissional quanto o mar do Caymmi.

Até que eu cresci, ou melhor, não cresci, porque o metro e sessenta — E UM!!!! — já me acompanha desde os 14 anos de idade, e a vida passou a girar em torno de conseguir dois ou quatro centímetros angariados da forma mais discreta possível. Nunca consegui usar scarpin, nem sou boa de andar elegantemente com salto agulha ou plataforma, mas fui me virando com aqueles mocassins covardes e sobrevivendo com as alpargatas possíveis, porque, ao contrário daquele povo superior e evoluído da comunidade Tênis Futebol Clube, eu precisava de um saltinho Roberto Carlos pra turbinar a confiança nos meus próprios toques, assistências e chutes a gol.

Mas por que tudo isso, se estamos no Segundo Caderno e não na Revista do Ela (e muito menos no caderno de Esportes… rsrs…)? Qual a relevância de questão tão frívola quanto uma categoria de sapato diante do Moro comendo pipoca numa pré-estreia de um filme em que ele faz o Batman e também diante das tragédias brasileiras, como os naufrágios e as recorrentes violências sofridas pelas mulheres nos transportes? Por causa da Rosa. Por causa da Laís. Por causa do cinema. Porque às vezes o trabalho e a vida se encontram num lugar mágico e misterioso que não há razão científica ou método de preparação russa que dê conta de tamanha comunhão entre ator e personagem. Porque eu fiz um filme chamado “Como nossos pais”, em que, aos quarenta no CPF e no intervalo entre o primeiro e o segundo tempo do jogo, fui obrigada a me ver durante dois meses em cima de um par de tênis azul marinho e surrado de nome All Star, e sobre ele construí/recebi uma personagem que iluminou minha vida inteira pra trás e pra frente e me deu a chance de fazer tudo diferente.

Eu sei, tá abstrato. Tô ficando com esse problema. Um pouco de elemento terra, então: Laís Bodanzky, diretora paulistana de cinema, “gênia”, realizadora dos excelentes “Bicho de sete cabeças” e “As melhores coisas do mundo”, me chama pra fazer uma leitura de seu novo roteiro, “Como nossos pais”, esse que agora tá em cartaz nos cinemas, vai aeee. Isso em 2015. Bom. Leio o texto. Me apaixono. Pela história e pela personagem. Passo no teste. Fico feliz. Fico feliz. Fico feliz. Vou deixar a repetição três vezes mas poderiam ser dez. Enfim. Ensaio. Conheço os outros atores. Organizo minha vida pra ficar dois meses em São Paulo e faço combinados firmes e amorosos com meus meninos. Tudo caminha relativamente bem até que na primeira prova de figurino dou de cara com a dupla. Ali estavam eles, à espera da pessoa que eu me tornaria quando os incorporasse, à espera de uma retidão de caráter que só a proximidade com a terra é capaz de oferecer. Do chão, ninguém passa.

De posse dos pisantes da Rosa, de alguma forma da Laís, e de alguma forma também meus — Plínio Marcos no subtexto —, encarei uma jornada vertical que me fez voltar de Gramado com um prêmio de atriz e, mais importante, que me fez voltar de São Paulo com um prêmio de pessoa. Tenho recebido um amor por parte das mulheres que viram o filme que até hoje só havia recebido dos meus filhos: um amor de cumplicidade absoluta e fechamento incondicional, como quem diz “eu sei o que você tá sentindo, eu sei como é, que bom que eu não estou sozinha, vem cá, vamos nos abraçar”.

No finalzinho do filme, e não vou desenvolver pra não dar spoiler, a personagem joga os tais tênis no lixo, como um ato simbólico de quem agora vai pra fase 2, verdade no comando e prazer profundo nesse novo jeito de viver, mesmo que doa um pouco no começo. Imitona que sou, fiz igualzinho aqui em casa, só que, ao contrário da Rosa, o que mandei embora foram os sapatos vermelhos da Dorothy, aqueles brilhantes, mágicos e reluzentes que a levam pro Mundo de Oz. Aos 4.1, eu quero a vida do All Star: pé no chão, problemas de frente, e amores imperfeitos.

Leia mais: https://oglobo.globo.com/cultura/meu-all-star-azul-21789774#ixzz4s2FBFFa4

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