O concreto constrói o quebra-cabeças da minha história

O texto de Martha Medeiros, que transcrevo mais abaixo, mexeu comigo.

Tenho que testemunhar uma coisa: eu, desde sempre plugadíssima com tablets, leitores tipo Kindle e smartphones, embora os mantenha para leituras de jornais e revistas, voltei assumidamente ao livro em seu formato mais tradicional. Ter o livro na estante me faz relembrar o que li, facilita o acesso às informações e trechos por memória visual, mantém ativa a sua existência em minha vida.

Pode parecer estranho, mas, nos dispositivos eletrônicos (como a maior parte de minhas leituras de Mestrado e Doutorado foram feitas, por exemplo), a sensação de inexistência me incomoda bastante. O acesso tem de ser criado por necessidade, não pelo acaso ou pelo “esbarrão” do que está espalhado pela casa. A falta desse contato para mim tem gerado um sentimento de esquecimento. Sinto-me emburrecendo porque não percebo a concretude do que li, aprendi, construí. Sei que parece louco, mas é o que sinto de verdade.  (Estou sofrendo o mesmo agora com os DVDs e CDs, com a era Netflix, Now, Google Play e Spotify. Mas não sei ainda como lidar com isso, porque diferente do livro que permaneceu no mesmo formato, já perdi meus discos de vinil, minhas fitas K7 e meus VHS… Talvez por isso essa vontade de escrever sobre os filmes que vejo aqui em meu blog. Quem sabe, assim, eles não desaparecem de meus olhos.)

O que percebo, cada vez mais em minha vida (acho essa experimentação muito legal), é que as coisas espalhadas concretamente ao meu redor são realmente importantes para mim. Pratico o desapego com facilidade, mas o apego à própria história é também importante e necessário. Saber quem somos, de onde viemos, o que plantamos e construímos faz parte da escrita da história de cada um, e isso se constitui também por meio das peças que juntamos nesse grande quebra-cabeças. Sem as peças, como criar o grande quadro?

Gosto das coleções bregas de canecas, ímãs e souvenirs das viagens que faço. Elas me proporcionam sempre boas lembranças de momentos especiais e me fazem sonhar e planejar novas viagens.

Gosto muito de fotos, muitas fotos! Sempre fiz álbuns. Não é de agora, com o advento das fotos digitais, que passei a fotografar tudo. Sempre gastei muito dinheiro com revelações. Nesse caso, em especial, também assumo que amo as disponibilizadas no FB, porque diariamente ele me mostra as lembranças daquela data nos anos anteriores. Essa rede social conseguiu gerar uma concretude real num espaço virtual em que tudo se perde. O FB provoca o “esbarrão” virtual pra gente manter vivas as lembranças.

Gosto dos crochês da vovó que ainda hoje tenho, das louças de casamento de meus pais e de meus sogros, das quinquilarias de valor puramente sentimental porque contam histórias das pessoas que amamos… Isso tudo me constrói como pessoa, costura a minha história e aquece o meu lar.

Gosto de meus livros. Abro mão anualmente de vários que apenas me trouxeram pequenos momentos de prazer ou informação, mas aqueles que mexem comigo, me transformam, me ensinam, me refletem, permanecem aqui para eu ler e reler quando quiser.

Gosto das cartinhas de amor de namorados, todas ridículas, como disse Álvaro de Campos, trocadas ainda na adolescência.

Gosto dos bilhetes e mensagens que recebi de meus alunos ao longo desses 21 anos de magistério.

Gosto dos meus cadernos de estudo, dos desenhos e trabalhinhos de colégio dos meus filhos, dos dentinhos de leite deles, da roupinha do batizado, da vela da Primeira Comunhão, das cartinhas para o Papai Noel…

Puro aconchego. Muitas lembranças.

Cada peça uma linha da costura de quem eu sou.

Como diz Zack Magiezi,

o desapego
é a liberdade
mais triste 
que eu conheço

 

Aí vai o texto de Martha Medeiros que gerou toda essa minha reflexão.

Falta de estoque

Outro dia quis dar de presente para um amigo um álbum com algumas fotos que sei que ele iria gostar. Não um álbum digitalizado, mas daqueles em que colocamos as fotos nos compartimentos plastificados. Que via-crúcis. A maioria dos álbuns que encontrei nas lojas era de bebês e de noivas. Por fim, encontrei um como eu queria, de capa lisa e com a dimensão desejada. Quando ele recebeu, abriu um sorriso daqueles: disse que fazia tempo que não era surpreendido, e acreditei. Quem ainda se dá o trabalho de revelar fotos?

Ao mesmo tempo, soube de uma livraria em Paris que funciona numa sala onde há apenas uma Espresso Book Machine – uma máquina que imprime livros na hora. Você entra, escolhe o que deseja num cardápio com cerca de 5 mil títulos e em poucos minutos leva para casa seu produto. Como tirar uma Xerox numa casa lotérica.

Os álbuns de fotos estão rareando no mercado. Os livros impressos ainda existem, mas começam a ser automatizados. Discos também ainda existem, mesmo a gente baixando música direto de aplicativos. Cadernos, agendas, revistas, canetas, lápis: tudo em vias de virar quinquilharia inútil, objetos de culto, no máximo.

O mundo físico está se diluindo.
E estoque é palavra que cairá em desuso rapidinho.

Observo minha casa e não imagino as paredes sem estarem tomadas por livros até o teto, as estantes entupidas de CDs, as dezenas de canetas enfiadas em potes, minha coleção de cartões-postais, os móveis amparando objetos trazidos de viagens, vários quadros pendurados, o chão forrado de tapetes diversos, os sofás cobertos de almofadas, lenhas e nós de pinho aguardando a hora de arder dentro da lareira. Um armazém doméstico.

Não guardo papelada inútil e rancores antigos, aprendi a deletar rapidinho tudo que é peso morto – para alguma coisa tinha que servir essa tal de maturidade. Mas preciso de aconchego e prazer, e o prazer vem do que é visual, tátil, perfumado, saboroso, sonoro. Sem o uso lascivo dos sentidos, que graça tem?
Entrar numa livraria onde só existe uma impressora me parece a descrição de um pesadelo. Digo o mesmo de uma casa onde tudo é monocromático, futurista, com muitos espaços vazios sem um cisco à vista, os móveis apenas dois ou três. Afinal, é um hospital ou um lar?

As pessoas andam meio piradas, e acho que essa assepsia só piora o quadro. Não limpem tanto a área, deixem as coisas se amontoarem: pela manutenção das prateleiras, ao menos. Quero poder procurar, furungar e encontrar o que quero, não apenas dar um toque numa tela. É o meu singelo manifesto contra a higienização dos nossos hábitos.

Texto de Martha Medeiros publicado em 28 de agosto de 2016, disponível em http://revistadonna.clicrbs.com.br/coluna/martha-medeiros-falta-de-estoque/

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s