Legalizar ou não a maconha?

Como falar da maconha?

Colunista Hélio Schwartsman

Folha de São Paulo, 03 de setembro de 2017

SÃO PAULO – Num mundo ideal, as drogas seriam todas legalizadas, e ninguém as usaria.

Meu argumento pró-legalização é essencialmente filosófico. Não cabe ao Estado determinar o que cada indivíduo pode ou não ingerir e muito menos definir o tipo de vida que cada um deve levar. Se o cidadão deseja mergulhar num entorpecimento semipermanente e não se importa em destruir sua saúde nesse processo, é um direito seu fazê-lo.

Subsidiariamente, também me parece interessante privar o crime organizado de uma de suas principais fontes de lucro. Vender drogas, afinal, é um delito muito fácil. O tráfico é um dos raros tipos de transgressão penal em que a suposta vítima chega a fazer fila para “sofrer” a injúria.

Existem também argumentos contra a legalização. Eles são de ordem sanitária. Se mais gente consumir drogas, teremos de lidar com um número maior de complicações médicas decorrentes do abuso.

Nesse contexto, preocupa-me a glamourização da maconha. Ela aparece de forma simpática em filmes de Hollywood, reportagens na mídia etc.. Dá para afirmar com segurança que o álcool causa mais danos à sociedade do que a maconha, mas, ainda assim, a Cannabis continua sendo uma droga. Ela traz riscos à saúde e, para uma pequena minoria da população, tem impacto devastador.

São inquietantes, por exemplo, as metanálises que ligam o consumo de maconha ao desenvolvimento de psicose crônica e esquizofrenia. Embora seja difícil prová-lo estatisticamente, muitos pesquisadores já apostam que essa seja uma relação causal e não de mero gatilho.

Para conciliar liberdade com sanidade, precisamos deixar de tratar drogas como caso de polícia sem, entretanto, sancionar socialmente seu uso pintando-as como charmosas. Precisamos transmitir a mensagem de que são um mal a ser tolerado, não símbolo de status. É o que fizemos com o tabaco e vem dando certo.

Texto publicado na Folha de São Paulo, disponível emhttp://m.folha.uol.com.br/colunas/helioschwartsman/2017/09/1915312-como-falar-da-maconha.shtml

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