“Como nossos pais” (2017)

Assistimos na sexta-feira ao filme brasileiro “Como nossos pais”. Vou ser sincera: saímos super deprê do cinema. Foi pesado. Apesar disso, a produção em si tem coisas bem interessantes e inesquecíveis. Vamos lá.

(Tentei evitar spoilers, mas…)

A discussão do papel da mulher, que assume uma carga maior de trabalho na casa e com os filhos, e as consequências disso na relação do casal aparecem do início ao fim.

A super-mulher contemporânea, aquela que se sente na obrigação de dar conta de tudo, também se descobre incapaz de tamanha onipotência, cheia de desejos, sonhos não realizados e mágoas. Muitas mágoas e incompreensões.

Aliás, a fórmula familiar repetida no casamento que se constrói com a tônica da música de Belchior, conhecida na interpretação de Elis Regina, é marcante. Pai e marido sonhadores são adoráveis com as crianças, encantadores com todos a sua volta, idealizados como homens bons. No entanto, são também inúteis na participação econômica e cotidiana da família. Ambos vivem suas vidas com a negligência que lhes convém e a tranquilidade que a segurança de uma mulher produtiva lhes permite. São verdadeiros sonhadores-viajantes dessa vida.

No extremo oposto, vemos a relação de duas mulheres fortes: mãe e filha. Em sua feminilidade, elas precisam dar conta de tudo e se enfrentam numa relação de amor e ódio, complementação e rivalidade. A mãe, já com a maturidade que se impõe com a experiência longa de vida, parece resolvida, mas não é bem assim. Ela é a verdadeira matriarca que bajula o genro querido e destrata filha e nora, superprotegendo seu filhinho amado. Isto é, aquela que durante anos sustentou um marido, artista plástico sonhador, com seu pulso forte de mulher à frente de seu tempo reproduz uma estrutura machista dentro de seu idealizado feminismo. Em suas ações, fica claro que o homem tem mais valor, merece todos os cuidados e mimos, que devem ser dados por suas esposas sempre carinhosas e prontas para servi-los.

(Parágrafo com Spoiler!) É a notícia de um câncer, doença tão cruel e marcante nas relações familiares, que traz um misto de pena e culpa a serem reparadas pela filha pra não viver com mais um peso em sua vida. Isso aproxima mãe e filha em alguns momentos de cuidado e carinho. Mesmo assim, elas não se beijam, não se abraçam, mal se tocam.

As questões da filha/esposa/mãe/mulher/profissional são o âmago de todo o desenrolar do filme e representam bem boa parte das questões que afligem a mulher contemporânea. No entanto, achei que as discussões a que o filme se propõe são apresentadas com tanta intensidade, que – me parece – se perderam numa tristeza profunda.

A vida familiar de um casal pode ser difícil, principalmente na fase em que há filhos ainda bastante dependentes no ir e vir, mas também é recheada de momentos felizes e prazerosos. O único instante em que essa singela e genuína felicidade se apresenta no filme não teve peso nem impacto algum. Perdeu-se em meio a tanta tristeza e angústia. Uma pena! Talvez isso tenha pesado em mim para sair mal do filme. Muita tristeza abate.

Bem, com exceção do piano que constrói uma linda metáfora de passagem, praticamente não há música na história. Os sons que ouvimos vêm da cidade de São Paulo, dos carros, das ruas, do trânsito, dos objetos sendo usados nas casas… O som se faz na rotina dessa família que representa as relações intrincadas de muitas outras.

No mais, sempre é bom conferir para ter a sua própria experiência e percepção.

https://youtu.be/-_8t-3PG8Qk

2 comentários

  1. Estava aguardando a resenha.

    Pelo trailler tive impressão de um filme denso e pesado. Não me despertou a vontade de assistir no circuito comercial e escolhi ver em um streaming.

    Cinema é diversão e também reflexão. Que tal deixar esse filme lá na sua lista e revê-lo mais adiante ?

    A sensação de rever um filme que não nos agradou e passar a enxergá-lo com outro olhar é uma sensação de liberdade imensa.

    “Eu prefiro ser uma metamorfose ambulante do que ter a velha opinião formada sobre tudo”

    Curtido por 1 pessoa

    • Oi, Cris! Antes de tudo, adorei sua visita e leitura. Obrigada!!!
      Com certeza, é um filme para ser revisto. Ele contém muitas coisas nas entrelinhas e precisa ser “ruminado”.
      Quem sabe daqui um tempo mudo de opiniao sobre ele?
      Beijos

      Curtir

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