As mulheres querem e têm o direito de aparecer!

As mulheres querem aparecer

Por Paula Cesarino Costa – Ombudsman

Folha de São Paulo, 03 de setembro de 2017

Um grupo de jovens de uma escola de Osasco debruçou-se sobre edições da Folha. Com o olhar fresco que a juventude proporciona, não ficaram presos àquilo que as páginas do jornal mostraram. Buscaram ausências que revelassem por si fatos concretos que não viram notícia.

“Cadê as mulheres?”, perguntaram-me os jovens na sexta (1º), quando me sentei à frente de dezenas de alunos da Ateneu Rá Tim Bum para falar da Folha e do trabalho de ombudsman. Lembravam que as mulheres representam 51% da população do país. Questionavam por que, ao folhearem o jornal, praticamente não viram mulheres nem negros. As notícias traziam quase sempre homens brancos.

No início da semana, recebi e-mail da escritora Beatriz Bracher, com reflexão sobre edição da Folha.

“O alto da capa da Folha [de 20 de agosto] continha duas matérias: uma sobre a maneira como a crise econômica afeta a vida das pessoas, e a outra sobre o aumento do número de estupros coletivos no país. Entre as fotografias das pessoas entrevistadas sobre a crise econômica, havia apenas uma mulher (eram seis fotos). Para mim estava muito nítida a relação entre as duas informações, ou seja, a maneira como o mais importante meio de comunicação impresso no Brasil considera pouco a mulher como agente econômico diz muito sobre a maneira desqualificada como a mulher é vista e, assim, como pode ser atacada sem maiores censuras, inclusive, morais,” escreveu a leitora.

O tema desta coluna se impôs com a notícia do juiz que soltou homem que havia sido preso após ejacular em uma mulher num ônibus.

O IBGE contabiliza que as mulheres correspondem a 43,8% de todos os trabalhadores e são responsáveis por 40,5% dos domicílios brasileiros. As mulheres reclamam de que tal papel econômico, político e social não se reflete nos jornais.

As mulheres não aparecem porque a sociedade é machista ou os jornais são cúmplices e corresponsáveis pela persistência desse machismo na sociedade? Qual o papel do jornal no questionamento da representação social da mulher e no enfrentamento do preconceito?

Em crítica interna, assinalei que é notável o esforço mais recente da Folha em produzir reportagens de temática feminista. Nos últimos dias, publicou levantamentos inéditos sobre violência contra a mulher: um revelava que o Brasil registra dez estupros coletivos por dia; outro, que São Paulo tem um feminicídio a cada quatro dias, em média.

Com frequência, a Folha aborda aspectos econômicos relacionados à questão de gênero. Mesmo com mais educação, mulheres ganham menos do que homens, atestou o jornal. Divulgou estudo que mostra que o abismo que separa os salários de homens e dos de mulheres dobra nos primeiros 15 anos de carreira.

O jornal abriu espaço a iniciativas feministas engajadas como o blog #AgoraÉQueSãoElas.

A maior presença da temática feminista, no entanto, não elimina os fios invisíveis que sustentam e alimentam a cultura machista na sociedade refletida no jornal.

Em respeito à diversidade, o jornal deve ir além do trato do tema específico em suas pautas. Precisa adotar mecanismos de detecção e controle de práticas que solapam a diversidade que defende em suas páginas. Para limitar-me aqui à questão de gênero, o jornal tem um papel decisivo na abertura de espaço para vozes de mulheres. Não só na contratação de repórteres, editoras e colunistas em seu corpo de funcionários, mas especialmente revendo práticas encasteladas.

É preciso refletir diuturnamente se a pauta ou cobertura reproduz práticas de fundo machista. Quantas mulheres aparecem como especialistas em economia, política e esporte? Mas o jornal não deveria ouvir os melhores independentemente do gênero? Será que o faz? Ou o predomínio masculino é resultado do piloto automático que reproduz condicionamentos machistas?

É fundamental ressaltar que essa discussão não pode jamais levar a uma decisão do tipo “sistema de cotas” para escolher personagens de reportagens ou selecionar especialistas a serem ouvidos. É, sim, necessário fazer um esforço para mudar comportamentos.

Como diz Beatriz Bracher, “mais importante do que matérias ‘feministas’, notícias sobre mulheres, reforço ao seu empoderamento (tudo isso é ótimo), é a existência da atenção de cada jornalista sobre o que está escrevendo, forma e conteúdo, qualquer que seja a matéria.”

O que querem as mulheres? A pergunta freudiana tem resposta evidente: querem aparecer! Sim, como protagonistas

Publicado pela Folha de São Paulo, disponível aqui http://m.folha.uol.com.br/colunas/paula-cesarino-costa-ombudsman/2017/09/1915362-as-mulheres-querem-aparecer.shtml

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