O racismo não é um direito

Li o artigo abaixo no site Géledes, neste link: O racismo não é um direito.  O texto é importante porque mostra o que sempre digo: o limite da tolerância é o intolerável. Há coisas que não se podem tolerar nem pelo direito à liberdade. O racismo, o nazismo são inadmissíveis porque incitam ao ódio, à segregação, à morte daquele que é diferente de si. Não respeitam os direitos básicos de todo e qualquer ser humano. Portanto, intoleráveis mesmo em um sistema democrático.

Boa leitura!

Opiniões.

Toda a gente tem uma. Melhor ou pior [in]formada, bem ou mal fundamentada, politicamente correcta ou não. No mundo da partilha instantânea, da velocidade de comunicação e da necessidade de expressão, a opinião é algo fácil de encontrar.

Por  ANA MANUEL FERREIRA , do Capazes

A definição de opinião parece simples: é uma ideia, uma crença, um juízo.

Só que uma opinião raramente é apenas isso. É certo que todos temos direito a ter uma, mas também é certo que o rótulo de “seres racionais” nos obriga a pensar antes de abrir a boca. Temos o dever de questionar as nossas próprias opiniões, de verificar factos, de aprender com os erros e com a história. Temos o dever de moldar o nosso carácter e o nosso cérebro, de fazer um esforço por deixar o mundo um pouco melhor do que o encontrámos. Acima de tudo, temos o dever de garantir aos outros tanta liberdade e tanto respeito quanto desejamos para nós próprios.

O que aconteceu em Charlottesville não é aceitável. Aquelas pessoas não estavam a exercer a sua liberdade de expressão, não estavam a expressar opiniões. Aquela gente estava a cometer um crime: incitavam ao ódio, à exclusão, ao racismo, à segregação. Aquela gente envergava a bandeira dos assassinos que deviam continuar a habitar os nossos piores pesadelos. Devíamos ter tanto medo do regresso dos nazis como dos incêndios ou do desmoronar da economia do país.

Só que não.

Habituámo-nos a rir dos nazis, porque eles são doidos, coitadinhos. Têm direito à opinião deles, coitadinhos, mesmo que gritem “morte ao preto” quando alguém inocente por eles passa na rua. Mesmo que esse desgraçado vá o resto do caminho até casa a olhar por cima do ombro, não vão eles lembrar-se de o seguir e dar-lhe pancada só porque nasceu com mais melanina na pele. Mesmo que usem a nossa inércia como arma, como forma de espalhar esta mentalidade doente. Mesmo que se infiltrem no teu grupo de amigos e de repente os ouças dizer merdas que nunca esperaste ouvir, porque sabes que são malta culta e até falam bem. Mesmo que alguém que conheces tenha sido obrigado a disfarçar a sua fé por medo de retaliações. Mesmo que um pai americano tenha de ensinar à sua filha de seis anos como reagir se for mandada parar pela polícia, porque nunca se sabe se lhes vai dar na cabeça alvejá-la.

Isto não é aceitável. Isto não é liberdade. Isto é o início de algo muito grave e muito perigoso, mas que sempre viveu escondido entre nós. É o início da perversão da democracia, do estado de direito, da liberdade individual e do direito à identidade de cada um.

Foi assassinada uma mulher de 32 anos. O seu nome era Heather Heyer e manifestava-se contra a explosão de ódio que ocorreu em Charlottesville. O seu último post no facebook dizia:

“If you are not outraged, you are not paying attention.”

E a verdade é mesmo esta: temos de nos indignar.

Chega de inércia, chega de politicamente correcto. O racismo não é uma opinião, não é uma opção de vida, não é um gosto. O racismo é um cancro social que vive em nós e tem de ser erradicado. O racismo não é um direito, é um crime contra a humanidade.

Ninguém tem direito a ser racista porque o racismo afecta as pessoas de forma negativa. É estúpido que tenha de se explicar isto, tal como é estúpido que tenha de se explicar que matar pessoas ou gostar de ter sexo com crianças não é uma opção de vida: é algo inaceitável.

A tolerância tem limites e esses limites estão definidos pela decência humana.

Está na altura de os aplicar.

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