O carro do ovo

Um conjunto de trabalhadores está investindo seu esforço em inventar formas de sobreviver à crise

Marcus Faustini

Segundo Caderno O Globo

22/08/17

“Trinta ovos por dez reais” — a frase, que sai do alto-falante do carro do ovo, é hoje uma das mais ouvidas em diversas regiões populares de cidades do país. É a frase da crise! Da criatividade daqueles que buscam sobreviver. Mas também vem ocupando um lugar especial na imaginação popular. E as redes sociais estão no centro desse fenômeno.

Existem muitas formas de falar da crise econômica. A escolha do foco revela a partir de quem você percebe seus efeitos. Nas constantes matérias sobre a crise, presentes em jornais, revistas e programas televisivos, de um lado, percebe-se uma valorização das histórias de pessoas de classe média alta que deixaram o Brasil em busca de outros países, com melhores circunstâncias, para manter seu padrão de vida. A escolha desse foco para representar os efeitos da crise busca aprofundar o valor político dessa classe e estender seus conflitos com o ciclo de governos petistas. De outro lado, existem as histórias, contadas em menor quantidade, que focam a crítica à crise econômica nos efeitos que ela provocou naqueles que, de alguma forma, foram beneficiados por esse ciclo de governos, apontando Temer, atual ocupante do cargo de presidente, como o ponto de virada para a perda desses direitos. Assim, falar da crise econômica virou mais um instrumento de acirramento da luta política, com sua nuvem de palavras e links que invadem a internet diariamente. Mas existe um conjunto de brasileiros, trabalhadores, que estão investindo seus esforços em inventar formas de sobreviver à crise. Muitos adiando projetos pessoais para garantir o imediato sustento próprio e familiar. O carro do ovo é uma dessas invenções.

A imagem é conhecida por quem circula na cidade, em especial aqueles que vivem nas regiões populares. Primeiro você escuta uma voz ao longe anunciando os 30 ovos e depois observa o carro, geralmente uma kombi, se aproximar. Em pouco tempo já é possível escutar toda a locução do pregão. “Atenção freguesia, são 30 ovos por R$ 10, eu disse 30 ovos por apenas R$ 10! A galinha chorôoou!!!” A kombi do ovo é a alegria das boleiras — minha irmã, que é boleira, fez questão de comentar no link de um vídeo que acompanha a passagem de um carro do ovo por uma das ruas do Cesarão, em Santa Cruz, Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro. Num outro ponto da cidade, na Zona Sul, na Praça São Salvador, a kombi fica parada, mais tímida, disputando atenção com um supermercado, daqueles que se colocam como “lugar de gente diferenciada” — afirmou um amigo fissurado em criar comparações do modo de viver nas ruas nos diferentes bairros da cidade e que tem um conhecido que fez um vídeo na internet, dentro de carro do ovo, dizendo que aquele era seu novo bico, pedindo a ajuda de todos e, com um louvor, finalizou o vídeo para mostrar que tinha fé.

O IBGE, em 2016, apontou que a produção de ovos chegou a 3 bilhões de dúzias. A origem de tanto ovo intriga e ocupa as conversas de meio-fio e de chats da juventude sagaz ligada em tudo que faz parte da imaginação urbana — de memes a boatos. Alguns dizem que o Espírito Santo é o estado de onde vêm os ovos, outros juram que a Bahia é o lugar que tem mais carros de ovos do país. O fato é que o carro do ovo é um fenômeno nacional, com forte expressão na vida online. E além da dimensão econômica e empreendedora, um rastro de expressão cultural popular toma forma. Vai virar um mito da geração que passa pela crise. Um jornal divulgou, com destaque, o link de uma matéria sobre um compositor baiano que criou um pagode em homenagem ao carro do ovo. Numa comunidade on-line da Maré, jovens fazem humor com as reclamações de uma kombi do ovo que circula a partir de 7h até as 22h — a mesma música o dia inteiro! Um site apresenta ofertas de serviços de criação de vinhetas para o “negócio do carro do ovo” com versões diversas que dialogam com o gosto musical popular. Tem versões em funk, gospel, etc. “Gente, inacreditável! Choveu, a rua tá alagada e quem tá passando aqui? O carro do ovo” — é a fala de uma mulher, num selfie-vídeo do YouTube, espantada com a onipresença do carro. Para comprovar, ela faz o flagra, filma da janela de casa o momento em que o carro atravessa a rua alagada. As almas eruditas, seletores de presença, podem não acreditar, mas o fenômeno do carro do ovo é um marco de estratégia de sobrevivência e cultura urbana. E não faltam aspirantes a “influenciador digital” criando histórias cômicas sobre o carro do ovo.

O carro do ovo estará na memória dessa crise. Daqueles que buscaram um trabalho para sobreviver, de quem precisou diminuir a quantidade de alimentos mais caros em suas dietas e de todos que estão atentos aos caminhos de fenômenos da cultura nos tempos das tecnologias audiovisuais popularizadas. Mas também estará nas lembranças das encenações de disputas políticas. Após a ovada em Doria, um print falso do diário oficial da prefeitura de Salvador circulou nas redes sociais anunciando que a venda de ovos estava proibida na cidade. Em tempos de crise o ovo é pop, é político.

https://m.oglobo.globo.com/cultura/o-carro-do-ovo-21731572

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