Cuidar dos filhos; cuidar dos pais

Sempre tive resistência à dor, mas cólica me tira do sério. Dor de barriga me arrasa. Entretanto, as cólicas de parto, por mais dolorosas que tenham sido (embora interrompidas pq não tive partos normais), carregavam, por trás, a alegria e a realização do nascimento da minha filha e do meu filho amados e desejados desde sempre. Eu as senti com imensa alegria, sem o medo nem o cansaço da dor pela dor. O juízo que faço disso é que cuidar de filhos dá muito trabalho, mas nos realiza tão profundamente, que a gente acaba superando tudo com tranquilidade. Nunca tive, por exemplo, nojo de cocô, de xixi ou de golfada dos meus filhos (mas dos filhos dos outros não era necessariamente a mesma coisa). Amei amamentar um ano cada um, apesar dos mamilos rachados por dois meses seguidos, das noites mal dormidas, apesar até do empedramento do leite materno e suas consequências. Eu passaria por tudo isso novamente, muito feliz e plenamente realizada na maternidade. Mas…

O tempo passa… Os filhos crescem… A gente amadurece… Nossos pais envelhecem … E os papéis se invertem.

Nessa inversão, algumas aprendizagens dos filhos que cuidam não são tão naturais e espontâneas como as dos pais de primeira ou de segunda viagem. No lugar da alegria e da realização, é preciso muita paciência, coragem e ânimo. É preciso muito amor para cuidar, mas também delicadeza e carinho para não destruir o pouco de dignidade que resta àquele que tudo fez por nós, quando pequenos, e agora precisa que aquele filho, adulto, faça por ele.

Comidinhas, fraldas, roupas limpas, banho são acrescidos de remédios, muitos remédios e manias (as manias e costumes dos idosos mereceriam um texto próprio). Cuidar do idoso pressupõe paciência para ouvir, tempo para fazer as coisas devagar, caridade para lhes dar um mínimo de privacidade (no jeito de tocar seu corpo e no modo de olhar sua intimidade) mesmo quando não há privacidade alguma.

Se antes espalhávanos brinquedos com alegria e colocávamos tapetes, acolchoados e almofadas para o bebê rolar, subir, engatinhar e descobrir novas possibilidade; agora, precisamos tirar os tapetes para não tropeçarem, os pufes e mesas de enfeite que estejam “no caminho”, precisamos adaptar banheiro, forrar cama, cuidar para que não se machuquem nas coisas aparentemente mais simples.

Acho que cuidar de um bebê, de uma criança, nos torna mais “senhores de si”, pelo menos era assim que me sentia: plena. Cuidar de um idoso, por sua vez, torna-nos mais humanos. Pais quando cuidam de seus filhos sabem que não voltarão a ser uma criança. Filhos, quando cuidam de seus pais, aprendem que, muito provavelmente, mesmo não querendo, se tornarão também idosos e, de certo modo, dependentes. Saber-se dependente também é uma grande aprendizagem. É preciso muita humildade.

Todos os cuidados são verdadeiras aprendizagens e nem todos têm o mesmo jeito nem a mesma sensibilidade. Entretanto, muito além do dom ou das habilidades para cuidar, deve existir o amor. Cuidar é amar; amar é cuidar. E, se não cuidamos de quem um dia nos deu a vida e cuidou d’a gente, o que aprendemos sobre o amor, o Amor, o amar?

8 comentários

  1. É Tatiane, imagino que cuidar dos Pais é mais trabalhoso que cuidar dos filhos.
    O cuidado em manter a dignidade, as complicações com privacidade, pudores são muito mais complexas do que o simples cuidado físico e psicológico que tínhamos com os filhos.
    Não acharia exagero cursos sobre como cuidar de idosos da maneira menos impactante na qualidade de vida dos mesmos…

    Curtido por 1 pessoa

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